Vários Nomes Para Julieta (Minotauro) é o mais recente romance de Ana Cristina Silva. O desafio de o escrever surgiu depois de ouvir uma reportagem na TSF sobre Violeta, uma mulher trans cuja história inspirou a autora a construir uma narrativa que explora a complexidade da experiência humana e aborda temas como o preconceito, a identidade de género e a exclusão social. Com esta obra, Ana Cristina Silva procura «agitar consciências».

Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, Ana Cristina Silva diz também que a escrita continua a ser, para si, um espaço de descoberta, liberdade e transformação, capaz de lhe permitir compreender melhor o mundo e as pessoas.

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A inspiração para o romance surgiu de uma reportagem radiofónica de Filipe Santa Bárbara, transmitida pela TSF, sobre Violeta. O que a motivou a pegar na sua história e a transformá-la num romance?

A reportagem da Violeta pareceu-me muito simbólica em relação às falhas da sociedade portuguesa, nomeadamente a grande distância que existe entre a legislação, as boas intenções e a acção que efetivamente se produz. Vê-se isso na violência doméstica, nos cuidados aos mais vulneráveis, etc.

Há também o facto de Violeta ser uma pessoa trans e todos os preconceitos que ainda persistem na sociedade sobre a questão da identidade de género. Devo dizer que o livro foi terminado bem antes da revogação da Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, que estabelece o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género. Tendo em conta a legislação que foi aprovada gostaria que o livro servisse de pretexto para um debate que, mais do que nunca, é necessário. Por fim, há ainda um facto curioso da reportagem, uma mentira da Violeta, que me parece ter surpreendido o próprio repórter.

Descreva-nos um pouco como foi o processo de escrita, em especial a experiência de passar uma história baseada em factos reais para a narrativa literária.

Foi mais complicado do que o habitual. Este romance foi escrito na sequência do livro mais complexo que escrevi até hoje, El-rei, Nosso Senhor, Sebastião José, um romance biográfico sobre o Marquês de Pombal. Foi um livro muito pouco investido pela editora da época, o que me deixou com uma depressão literária (que é muito mais fino do que uma vulgaris depressão!)

Pela primeira vez, dediquei-me a outras coisas antes de começar a escrever um novo romance. Fiz a Agregação, escrevi uma brochura sobre Aprender a escrever para a Direcção-Geral de Educação (faço sempre muitas coisas ao mesmo tempo, escrevo artigos científicos, romances, etc. etc., mas na altura não fui capaz). Tenho um amigo escritor, Henrique Levy, uma pessoa muito sensível, que me disse para ouvir essa reportagem da Violeta. A sugestão tinha, claramente, segundas intenções: queria levar-me a voltar a escrever e conseguiu. Ainda assim não escrevi este livro como costumo escrever: um mergulho em realidades alternativas como sempre me acontece. Foi um exercício de esforço, para o qual fui incentivada por várias pessoas, a quem agradeço logo ao princípio do livro. Afinal, não sou propriamente uma principiante. No entanto, sinto que a cada livro estou a começar de novo. Não tanto pelas dificuldades do livro, mas pela forma como tenho sido forçado a recomeçar por várias circunstâncias editoriais.

Escrevi vários romances biográficos sobre Florbela Espanca, Al-Mu’Tamid, Rimbaud, etc, etc., e escrever baseada em factos reais não é, para mim, diferente de escrever com base em personagens ficionadas (aliás este romance apresenta as duas facetas). Em ambos os casos é necessário ficcionar. Talvez seja através da narrativa literária que conseguimos alcançar, ou pelo menos tocar, as verdades mais profundas das pessoas e das personagens.

A história de Julieta aborda questões como a identidade de género, a violência e a exclusão social. Na sua opinião, quais são os principais desafios que a sociedade portuguesa enfrenta no que diz respeito à inclusão e à aceitação da diferença?

Ser capaz de superar estereótipos e distinguir opiniões e de factos científicos é fundamental. O preconceito e os estereótipos funcionam como lentes que impedem as pessoas de ver a singularidade e a complexidade de cada ser humano, complexidade essa que não se define na orientação sexual, raça ou sexo. O peso social dos estereótipos, nomeadamente em relação às pessoas trans, acaba por moldar e dificultar em muito a sua vida. A superação dos preconceitos implica a consciência de como são limitadores do pensamento e sobretudo perceber a diferença entre uma opinião e os factos sustentados por conhecimentos científicos. São muitos os estudos sobre as pessoas trans e que aparentemente os legisladores não querem saber. Infelizmente, a propagação dos preconceitos é mais fácil do que análises que implicam estudo.

No início da narrativa, o inspetor Raul Eiró depara-se com o caso de Julieta, mas a sua história acaba também por despertar dúvidas e conflitos pessoais relacionados com a identidade da própria irmã mais nova, “desde sempre uma maria-rapaz”. Porque decidiu explorar esta ligação entre a investigação policial e a vida pessoal da personagem?

Eu não escrevo romances policiais, escrevo romances psicológicos. O leitor até pode ser levado a pensar que está perante um romance policial, e talvez até tenha alguns elementos do género. Mas neste, como em todos os meus romances, procuro descobrir e desvendar a complexidade humana, onde os dilemas e os conflitos ocupam um lugar central. Pareceu-me interessante inventar essa personagem e cruzar a história dele com a de Julieta (que por sua vez segue em traços gerais a história de Violeta, mas tem muitas partes inventadas) e explorar um percurso de mudança. Além disso, um inspetor da Judiciária movimenta-se quase sempre nas margens mais escuras da humanidade e isso interessava-me. Como diz a minha mãe, é raro eu contar uma história a direito, por apreciar enquanto escritora a complexidade de estruturas narrativas e as diferentes camadas das personagens.

Ao escrever uma história com estas características, que reflexão gostaria (se gostaria) de despertar nos leitores?

Gostaria de agitar consciências… até porque a história do detective, correndo até o risco de me tornar repetitiva, é um percurso de superação do preconceito. O processo de mudança realiza-se sempre com avanços e recuos senão não seria verosímil. Às vezes, é um problema do ponto de vista literário o facto de ser psicóloga.

Ao longo da sua carreira, publicou romances que exploram diferentes épocas, personagens e realidades humanas. O que a continua a motivar a escrever?

Ora aí está uma pergunta – também ela – complexa! A resposta mais verdadeira é que escrever é a minha maneira de continuar a brincar. É um desafio e uma brincadeira que dá imenso trabalho. Talvez seja também a minha forma mais profunda de comunicar. Talvez porque, através da escrita posso voar para fora da realidade e ser outras personagens que tem um bocadinho de mim ou pelo menos a minha percepção das coisas. Tenho aprendido e descoberto imensas coisas por escrever romances e nunca saberia se não escrevesse. Gosto mesmo muito de escrever e a literatura já me salvou literalmente. Há uns anos fui atropelada e fiquei com uma pequena lesão na área da linguagem. Foi o facto de ter revisto as provas de um romance com o título Salvação que permitiu ao meu cérebro criar outros circuitos funcionais. Parece que estou a ficcionar com esta última história, mas aconteceu mesmo.

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