[Entrevistas RIL] Vitorino Coragem: “Fotografo melhor quando quase desapareço”

Vitorino Coragem é fotógrafo e artista visual.

O seu trabalho desenvolve-se no cruzamento da fotografia e do vídeo com a literatura, as artes performativas e a música. Desde 2014, trabalha na criação de imagens para espetáculos, concertos e projetos editoriais. Em 2023, apresentou na Fundação Calouste Gulbenkian a exposição Ver é Ser Visto, dedicada a Eduardo Lourenço, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento. Orienta também laboratórios de criação em torno da fotografia, dedicados à relação entre a palavra, o território e a imagem.

Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, Vitorino Coragem fala sobre o desafio de fotografar escritores, o olhar do fotógrafo e o papel do retrato na construção da memória e da imagem literária de um autor.

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Quando fotografa um escritor, procura fotografar a pessoa, o escritor ou a ideia que tem dele? E até que ponto aquilo que conhece da sua obra interfere na imagem que procura construir?

Quando fotografo um escritor, procuro sobretudo conhecer a pessoa, embora não consiga separá-la por completo daquilo que escreve.

Durante muitos anos quis ser escritor. Foi este desejo que me levou primeiro ao jornalismo. Só mais tarde descobri na fotografia uma linguagem onde vários sentidos podem existir ao mesmo tempo. Um rosto pode contar histórias diferentes num único instante. Foi essa liberdade que me seduziu. Não abandonei a procura. Mudei de linguagem.

Talvez por ter sido jornalista, levo comigo uma espécie de guião de entrevista, não para falar sobre a obra, mas para conhecer o ser humano que está por detrás dela. Normalmente, falamos de trivialidades. A obra acompanha-me, mas não funciona como um mapa. Não procuro ilustrá-la nem confirmar uma ideia anterior. Quero descobrir quem está diante de mim.

Há uma espécie de negociação entre fotógrafo e escritor no momento da fotografia: um pede para ser fotografado, o outro decide como o vai mostrar. O que procura nessa relação e quanto da fotografia nasce daquilo que acontece entre os dois?

Não sinto que um decida e o outro obedeça. Quando alguém se coloca diante da minha câmara, estamos ambos expostos, embora de maneiras diferentes. A sessão torna-se uma experiência, quase uma pequena performance. A confiança nasce das palavras, dos silêncios, dos gestos e daquilo que nenhum dos dois sabe explicar. Uma recordação pode atravessar um olhar. Uma pausa pode mudar o corpo.

Parto de algumas ideias e da luz que encontro ou construo, mas deixo espaço para a intuição, para o inconsciente e para aquilo que me escapa. Por vezes, um acidente abre um caminho que eu não tinha previsto. Apenas sigo pistas. No retrato, estar perto não é apenas uma questão de distância. Como dizia Robert Capa, “se as tuas fotografias não são suficientemente boas, é porque não estás suficientemente perto”.

Numa entrevista, Daniel Mordzinski fala da importância de retirar o escritor da «pose acartonada» e de encontrar a pessoa por detrás do autor (“Yo creo que la mejor manera de sacar a un escritor de su pose de escritor es proponerle una nueva pose que poco tenga que ver con el lugar común que es el escritor y la biblioteca, el escritor y sus libros”). Também procura esse momento em que o escritor deixa de representar o papel de escritor? E como percebe que esse momento chegou?

Um escritor passa muitas horas a sós com as palavras. De repente, pedem-lhe que ofereça o rosto e o corpo a uma câmara. É natural que procure proteger-se. Não acredito que exista uma “pose de escritor” que seja preciso destruir. Uma pose não é necessariamente uma mentira. Por vezes, é apenas um abrigo. Também ela revela alguma coisa.

O teatro e a dança têm sido escolas importantes na minha forma de olhar. Ensinaram-me que um gesto não começa nem termina no movimento. Há qualquer coisa antes e depois. Durante a sessão, dou algumas indicações e depois recuo. Observo e deixo o silêncio trabalhar. Percebo que alguma coisa mudou quando o corpo deixa de esperar por instruções e o olhar já não procura a minha aprovação. Nos encontros e nos festivais literários, prefiro circular pelas margens. Interessa-me a discrição de Vivian Maier, essa possibilidade de estar presente sem interromper o que está a acontecer. Fotografo melhor quando quase desapareço.

O que acha que um escritor procura quando aceita ser fotografado? Quer reconhecer-se na fotografia, mostrar uma determinada imagem de si, deixar um testemunho, ou espera simplesmente que o fotógrafo descubra algo que ele próprio não vê?

Muitas vezes, o escritor procura primeiro uma fotografia por uma razão concreta, ligada a um livro, à imprensa ou à sua apresentação pública. Mas quero acreditar que, quando escolhe trabalhar comigo, reconhece uma forma humana de olhar e uma linguagem visual com as quais se identifica.

Costumo dizer que a fotogenia é uma questão do fotógrafo. Todas as pessoas têm poses, gestos e expressões de uma grande beleza. Cabe-me criar as condições para que apareçam, sem obrigar ninguém a representar uma personagem. A fotografia começa antes da imagem e prolonga-se para além dela. Começa na expectativa e na conversa. Continua na memória da experiência. Quando alguém recebe as fotografias, não vê apenas o resultado. Recorda também aquilo que viveu durante a sessão fotográfica. Pode encontrar uma expressão ou uma beleza que nunca tinha reconhecido em si e olhar-se de outra maneira.

Uma boa fotografia de um escritor pode acabar por se tornar uma espécie de extensão da sua obra, uma imagem através da qual passamos a imaginá-lo. Quando entrega uma fotografia a um escritor, sente que está a fazer apenas um retrato ou também a participar na construção da sua memória e da sua imagem literária?

É impossível separar completamente a pessoa, o escritor e a obra no instante em que o fotografo. Tudo está presente no rosto, no corpo e na forma como ocupa o espaço. Um retrato não contém uma vida inteira, mas pode guardar os seus vestígios. Um pensamento, uma inquietação, o reflexo de um tempo num olhar. Sei que aquela fotografia pode vir a acompanhar um livro, uma notícia ou a memória que os leitores conservam daquele autor. Deixa de pertencer apenas ao encontro que lhe deu origem e entra numa história maior.

Com o passar dos anos, este trabalho ganhou também um sentido coletivo. Cada retrato é individual, mas, quando os vejo em conjunto, formam um retrato mais amplo da comunidade literária. São rostos, percursos e sensibilidades diferentes, reunidos numa mesma memória. Não quero fechar uma pessoa numa imagem definitiva. Quero que o retrato continue a respirar. Talvez, no fundo, esteja a tentar perceber que rosto tem o nosso tempo.

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