Isabel Gonçalves, co-autora do livro «Mais de Duas Chuvas», em entrevista à RIL: «Acho que esta é a história de todos e não é de nenhum»

Uma história que atravessa três cenários da Guerra Colonial, memórias de antigos combatentes e a vontade de preservar uma parte da História que não pode ser esquecida. Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, Isabel Gonçalves, co-autora de Mais de Duas Chuvas, fala sobre a origem do livro, a colaboração com Jocelino Bragança Rodrigues e a difícil fronteira entre memória e ficção.

Isabel Gonçalves

A minha primeira pergunta é bastante simples: por que razão decidiu escrever este livro e por que motivo o fez em colaboração com Jocelino Bragança Rodrigues?

Todas as histórias, todos os livros, têm uma história. Este não foge à regra. Também tem uma história. Longa. Mas que eu vou abreviar. Sou filha de um antigo combatente da guerra do ultramar que, aos 21 anos, embarcou no Vera Cruz, em Lisboa, no dia 21 de setembro de 1963, e desembarcou no dia 9 de setembro de 1966, também do Vera Cruz, sem nunca ter vindo a casa, ao continente, nesses quase 3 anos.

Desde pequena que me lembro de ouvir o meu pai falar sobre a guerra, de mostrar uma cicatriz na perna, provocada por uma bala, e de lhe ver uma tatuagem no braço, feita por outro soldado, no ultramar.

E eu ia-lhe perguntando histórias, e ele ia contando. Há cerca de 5 anos, ou talvez mais, pedi-lhe que escrevesse sobre isso. Ele escreveu. Três ou quatro páginas. E foi a partir daí que comecei a idealizar o livro: banda desenhada a iniciar cada parte, ilustrações a preto e branco… Fiz um primeiro manuscrito e pus-me à estrada. Precisava de apoios. A primeira porta onde bati foi na da Associação dos Combatentes do Ultramar Português, em Castelo de Paiva. Fui muito bem recebida e gostaram muito da ideia, mas apoio financeiro não me podiam dar. Então, marquei no telemóvel o número da Liga dos Combatentes, de Lisboa, mas a pessoa responsável por esses assuntos estava de férias. Azar (ou talvez não!). Liguei para o Porto. Atendeu-me o Coronel Jocelino, que se prontificou logo a ajudar, quer no texto, quer nas diligências para encontrar apoios. Eu aceitei de imediato, claro! Poder contar com uma pessoa com tantos conhecimentos e experiência em palcos de guerra era o melhor que me podia acontecer naquele momento. E foi então que lhe propus que escrevêssemos o livro a 4 mãos, a partir daquele primeiro esboço.

Jocelino Bragança Rodrigues

O título Mais de Duas Chuvas é muito interessante porque remete para a ideia de tempo, sendo o tempo em guerra algo muito marcante para quem nela participou. Como surgiu esta expressão e em que momento se percebeu que poderia dar um bom título?

A escolha do título também tem uma história longa (risos). Nós queríamos um título original, que transmitisse a essência e o tom da obra e ao mesmo tempo despertasse a curiosidade. À medida que íamos trabalhando no texto, íamos anotando palavras-chave, expressões, títulos possíveis (o primeiro título que me tinha surgido era um número, porque era dessa forma que os soldados eram identificados). Entretanto ouvi esta referência à contagem do tempo em África, não sei precisar onde. Talvez numa live, num vídeo do youtube, numa formação online… Não sei. O que sei é que me soou bem e registei logo. Já muito perto da última versão do texto, fomos eliminando alguns possíveis títulos até termos apenas três ou quatro opções. E com essas fizemos uma sondagem: em grupos de WhatsApp ligados à leitura e escrita — o Nelson certamente lembra-se disso (risos) –, amigos, professores, alunos do 3.º ciclo e do secundário (queríamos muito despertar a curiosidade nos adolescentes e jovens), e este título foi o mais votado. Era também o meu preferido, reconheço (risos).

O livro parte de factos reais, mas é apresentado como uma narrativa ficcionada. Foi difícil estabelecer a fronteira entre a memória e a ficção?

Sim. Aos testemunhos que recolhi acrescentamos elementos para melhor ilustrar a vida dos combatentes e para preencher algumas lacunas nas informações. Mas eu diria que, na maior parte dos episódios relatados no livro, não há uma fronteira muito definida. Posso contar um episódio de um antigo combatente que partilhou, com a voz embargada, numa apresentação, que ao ler o livro sentiu que estava a ler a sua própria história. Acho que esta é a história de todos e não é de nenhum.

O Escancha, o Piolho e o Bardino são personagens que atravessam três cenários de guerra (Angola, Moçambique e Guiné). O que quiseram mostrar através das diferentes experiências? Há algo que as aproxime para além da própria guerra?

Procuramos tratar um leque o mais variado e abrangente de temas da guerra do ultramar: as viagens, o primeiro impacto de quem chega a um país desconhecido e tão diferente: o clima, as paisagens, as pessoas, a cultura. No fundo, as vivências, o contacto com os autóctones, a adaptação ao clima, o esforço, foram semelhantes; as sensações e emoções foram as mesmas, independentemente do cenário, e apesar das diferenças e especificidades da cada país e palco de guerra. Acho que são as sensações e emoções que aqueles rapazes vivenciaram, e que quem lê o livro pode também experienciar, ainda que de outra forma, claro, que mais as aproxima.

Circunscrever a narrativa a um só palco não seria justo para com os combates nem tão rico para os adolescentes e jovens.

Sessenta anos depois, é o Escancha, sentado numa paragem de autocarro, que regressa a esse passado. O que acontece à memória de uma experiência traumática? Será que recordar é também uma forma de reconstruir aquilo que aconteceu?

Os combatentes que eu entrevistei, e aqueles com quem falei (eu entrevistei 6 antigos combatentes, 2 de cada palco de guerra, mas ao longo do processo falei com muitos outros) demostraram uma grande necessidade de falar sobre o tema, de contar o que viveram; de relembrar os momentos maus, mas também os bons. E notei que há muito sofrimento recalcado, memórias que não se apagam e uma grande necessidade de dar a conhecer esse período das suas vidas e da nossa história.

Acredito também que, além de reconstruir o que aconteceu, é também uma forma de dar um novo significado a esses acontecimentos. Por isso, o Escancha tem aqui um papel de relevo para o leitor das diferentes idades: os mais novos podem entender mais facilmente esta parte importantíssima da nossa história; os mais velhos, os que a viveram na primeira pessoa (tanto os que foram como os que ficaram, como as mães, as namoradas, as esposas, os filhos) encontram aqui uma oportunidade para reinterpretar o que aconteceu, à luz do presente, e alterar o impacto emocional que essas lembranças lhes provocam.

E não nos podemos esquecer de que conhecer o passado ajuda a perceber o presente e a construir o futuro.

Na sinopse, lê-se que estas memórias ficam gravadas «para que a História jamais esteja ausente». Mais de Duas Chuvas é uma tentativa de contrariar um certo esquecimento do que foi a Guerra Colonial e do que ela representou para milhões de portugueses?  

Sim, sem dúvida. E o facto de, em termos gráficos, o livro intercalar a banda desenhada a cores (que retrata o presente) com a narrativa, ilustrações e banda desenhada a preto e branco (que revisita o passado), é mais atrativo para os adolescentes e jovens, que queremos muito que sejam, a par com os adultos, o público-alvo deste livro. Esta é transversal a várias faixas-etárias e estamos certos de que será muitas vezes revisitada e de que, a cada nova leitura, novas descobertas e focos de interesse surgirão.

Relembro que este não é um livro de história, ainda que contribua para a preservação da memória coletiva. Parece um paradoxo, não é?

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