
Rui Bondoso é jornalista, biógrafo e ensaísta.
Depois de O Editor Esquecido, Rui Bondoso está de regresso com o livro Respondo Por Mim, um estudo biográfico da vida e obra de Orlando Neves, jornalista, dramaturgo, poeta, que será apresentado no próximo sábado, dia 26 de Setembro, na Biblioteca Municipal de Portalegre.
Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, Rui Bondoso explicou que escreveu esta biografia para resgatar da amnésia cultural a obra vasta e multifacetada de Orlando Neves, destacando a sua coragem ética e o seu compromisso inabalável com a liberdade.
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O que o levou a escolher Orlando Neves como objeto desta biografia e o que descobriu sobre o escritor durante a investigação que mais o surpreendeu?
A minha proximidade com Orlando Neves no início dos anos 1990, advinda do jornalismo onde ambos navegávamos, revelou desde cedo uma figura de manifesto interesse analítico. Contudo, a verdadeira dimensão da sua versatilidade e desdobramento cultural só se tornaria evidente ao convertê-lo em objeto de investigação. Mas, arrebatado pela grandeza da sua obra, causou-me imensa surpresa que tamanha produção artística vivesse na obscuridade, esquecida há décadas e inacessível ao público. Uma invisibilidade absurda, cenário que me impeliu a resgatar a sua história nesta biografia.
Orlando Neves teve uma atividade muito diversificada — foi poeta, escritor, dramaturgo, jornalista, tradutor, encenador e dinamizador cultural. Como procurou retratar essa personalidade multifacetada sem deixar nenhuma das suas dimensões para trás?
Retratá-lo exigiu uma abordagem estruturada de modo a evitar cair na armadilha de o categorizar apenas por uma das suas facetas. É verdade que na biografia hierarquizei a dimensão da sua produção literária: primeiro, o Orlando-poeta; segundo, o Orlando-dramaturgo; e terceiro, o Orlando-jornalista cultural. No entanto, todas as outras facetas, onde também foi sempre genial, fizeram igualmente jus ao estatuto de figura central da cultura portuguesa da segunda metade do século XX.
No livro, afirma que a produção literária de Orlando Neves permanece “injustamente submersa”. Na sua perspetiva, quais são as principais razões para o esquecimento de um autor que teve reconhecimento de tantos escritores e críticos?
É uma boa pergunta. Enquanto viveu, quer em Lisboa quer no Porto, Orlando Neves foi uma figura pública de destaque, respeitada e admirada no panorama cultural português. Mas após o seu desaparecimento, em 2005, foi sendo esquecido, apesar de tantos escritores e críticos literários terem, em vida, exaltado a sua obra, em especial a poética. É verdade que os seus livros não venderam milhões de exemplares, como supostamente terão vendido outros escribas de duvidosa qualidade, ora, talvez tenha sido por isso que sucumbiu todo o seu esplendor. Hoje, como se sabe, a força que submerge a criação já não usa o lápis azul da ditadura, mas sim o manto invisível da indiferença mercantil. Explico melhor. Hoje, a criação já não é proibida por decreto, mas sim asfixiada pelo mercado. Se uma obra de arte, um livro ou uma ideia não der lucro imediato, ela é simplesmente ignorada. Não precisa de ser censurada, porque o próprio sistema a torna invisível e irrelevante. Ora, no caso de Orlando Neves, esta amnésia cultural tem privado as novas gerações de um olhar satírico, humanista e profundamente livre sobre a nossa história contemporânea.
Orlando Neves viveu e trabalhou durante o Estado Novo e chegou a recusar uma declaração que lhe exigia afirmar que não praticava atos contra a ditadura. De que forma a resistência cultural e política marcou a sua obra e o seu percurso pessoal?
Ele teve essa coragem, sim. Afrontou o sistema, recusando assinar essa insana declaração, perdendo o emprego onde era, à época, muito bem remunerado. Essa posição foi o reflexo prático de uma postura ética que ele já defendia desde a sua intensa atividade no associativismo estudantil, particularmente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em 1958 e onde foi Presidente da Associação Académica. Aquele ato de coragem foi o culminar para uma transformação do seu percurso numa afirmação constante de liberdade contra a opressão da ditadura.
O título da biografia, Respondo por mim, coincide com uma obra de poesia publicada por Orlando Neves em 1971. Por que escolheu esse título e o que considera que ele revela sobre a personalidade e a atitude de Orlando Neves perante a vida e a sua época?
Sim, é verdade. O título da biografia não é acidental, é um resgate intencional da própria voz de Orlando Neves através da sua antologia poética de 1971. Ao escolher o título de um livro do meu biografado, procurei estabelecer que a chave para compreender o homem reside na sua própria criação e nas suas próprias palavras. O título, que fique claro, rejeita qualquer leitura de individualismo egoísta, funciona antes como o lema de vida de Orlando Neves. Revela que a sua biografia não é apenas o relato de acontecimentos passados, mas sim o retrato de um homem que viveu de forma autêntica, respondendo perante a sua própria consciência e deixando uma obra vasta e livre.
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