
Vivien Merciel Suarez é escritora carioca e vive em Portugal desde 2023. É cronista e colunista do jornal PÚBLICO Brasil. É igualmente autora de Mapas Instáveis (Mercador), um livro de contos que saiu este ano em Portugal.

Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, Vivien Merciel Suarez reflete sobre a relação entre território, memória e identidade, o lugar da literatura perante as questões sociais e políticas do seu tempo e o papel da empatia na criação literária.
A propósito de Mapas Instáveis, a escritora fala igualmente sobre a importância de aproximar a leitura de quem dela se afastou, sem abdicar da complexidade das histórias e das personagens.
*
1
O que é que a literatura lhe permite dizer que talvez não conseguisse dizer de outra forma?
A literatura me permite dizer coisas que às vezes até eu mesma desconheço. Acho que por isso a palavra escrita tem esse valor que me parece intangível. Por exemplo, há pessoas que têm o hábito de anotar sonhos, coisa que eu não gosto, pois, quando os anotamos, a linguagem escrita faz com que eles assumam narrativas distintas das que sentimos em seus vestígios ao acordar. O que vira palavra escrita possui o seu próprio “reino”, por assim dizer. Há algo que se passa entre o querer escrever e o próprio processo da escrita, e o que nos move acaba por se transmutar de alguma forma quando se torna palavra escrita. Não tenho muito controle sobre isso, o que por si só já me instiga, pois quero ver o que emerge. Mesmo que eu tenha uma escaleta para uma história, a própria história acaba por me desvelar outras nuances. E acho que só a literatura me permite chegar a esse tipo de fluxo em vigília, por isso, me permite dizer tudo o que eu não acesso de outra forma. Sempre há algo que emerge, mas que, para emergir, precisa que eu abra o espaço para a palavra escrita poder passar. Mesmo que eu esteja num melhor ou pior dia para escrever, preciso abrir esse espaço e, para isso, sou muito grata por ter uma coluna semanal num jornal, por exemplo. Isso abastece a minha constância, pois acaba por me exigir não apenas o fluxo de escrever toda semana, mas o de chegar a um texto pronto para publicação a cada semana. Esse é um ritmo que nos dá um fôlego de escrita muito bom.
2
Quando começa a escrever uma história, parte mais de uma personagem, de uma imagem, de uma situação ou de uma ideia que quer explorar?
Depende muito do que a história me pede, mas gosto de considerar que o território é rei. Para mim é ele quem dá o pulso da história, e gosto também de pensar quem são as personagens daquele território e quem são os outsiders. Esse é um tipo de observação do quotidiano que me interessa muito e que aparece nas minhas histórias e nas minhas crónicas para o jornal. Às vezes o território é até uma personagem da história, como no “Gerês” ou “No umbigo do mundo”, contos que estão no meu livro. Mesmo quando parto de uma situação, de alguma forma, isso esbarra no território, como no caso de “Antes que saibamos”: uma crónica minha sobre amores de primavera, que começa por constatar que o comportamento das pessoas da cidade mudou junto com a estação do ano. Para chegar a esse lugar universal da paixão sazonal, escolhi ambientar no Porto, pois as ideias precisam de imagens para ganharem corpo e serem tangíveis, para deixarem de estar só na cabeça e irem para o físico, para provocarem sensações. No conto “Conciliabulum”, a partir da ficção, falo sobre algo real, que de facto aconteceu em Portugal, e por ser de impacto nacional, escolhi ambientar na capital. Em contraponto, quando escrevi sobre o dia do apagão, de propósito ambientei no Porto, porque Portugal não é só Lisboa e cada cidade sentiu o impacto desse dia com as suas particularidades. Quando parto de uma imagem sem território, percebo que acabo por desaguar na memória, como uma vez em que recebi o desafio de escrever a partir de um quadro abstrato com uma linha curva num fundo branco e lembrei-me das mulheres que tentam alisar as curvas dos próprios cabelos em busca de adequação, então escrevi uma ficção breve sobre género, pressão estética e relação mãe e filha.

3
A experiência de viver entre dois países mudou a forma como olha para as pessoas e para as histórias que quer contar?
Percebo que mudou bastante, principalmente após a imersão na cultura portuguesa e a busca por tentar perceber os diferentes Portugais que coexistem no mesmo território. Olho com muito apreço e respeito para o país e a sua gente, e me parece mesmo uma injustiça social tudo o que vem ocorrendo na tensão com os expatriados, e não com os imigrantes, que contribuem na segurança social e com sua força de trabalho. Chega a ser desrespeitoso que um expatriado seja mais bem tratado pelo país do que os próprios portugueses, mesmo sem muitas vezes terem sequer o interesse de aprenderem a língua ou tecerem relações com as pessoas de cá. Isso gera um sentimento coletivo de injustiça grande e estamos a ver muito do resultado disso nas acampadas e manifestações populares no Porto e em Lisboa, com toda a razão. Passei a olhar para isso de forma ainda mais crítica depois que fiz o Erasmus+ na Catalunha. Muito do que está a acontecer com Lisboa e Porto já acontece há tempos em Barcelona, que também está com manifestações populares e acampadas. Os catalães não fazem vista grossa para essas coisas. Eles até reivindicam os próprios direitos linguísticos quando necessário. E há um arcabouço jurídico fundamentado para garanti-lo. Temas como a diplomacia cultural e a geopolítica cultural, campos que eu desconhecia antes de virar imigrante, começaram a me interessar. Acho que antes, quando eu era só turista, olhava para as pessoas e suas culturas e territórios com uma curiosidade quase hedonística. Depois da imigração, passei a ter muito mais respeito e reverência por esse conjunto e também a olhar de forma mais ampla, pensando mesmo em relações internacionais. Acho que deixei de me “lambuzar” com o mundo, como criança com melado, e passei a palmilhá-lo, como no desfecho do meu conto “No umbigo do mundo”. Passo a querer contar histórias sobre esses sujeitos dos seus tempos e das suas cidades, a querer contar a partir do quotidiano, dos dias aparentemente comuns.
4
Até que ponto acredita que um/a escritor/a deve ter uma posição perante as questões sociais e políticas do seu tempo? É possível escrever sem tomar posição?
Tanto é possível que a bossa nova foi criticada durante a ditadura militar no Brasil por não tocar nesses temas, foi considerada alienada por não dialogar com a sociedade. Nos dias de hoje, cheguei a conhecer um correspondente internacional que estava a cobrir o conflito entre Israel e a Palestina e ele disse-me que pessoas do seu convívio em Israel, que trabalhavam com expressões artísticas, estavam a levar vida normal, a ignorar o que se passava com a Palestina. Um tema que já é barulhento a nível mundial. Vimos muito disso também nas últimas eleições presidenciais em meu país, inclusive, muitos artistas e influenciadores foram cobrados pela população a se posicionarem. Foram muitos ataques digitais nos comentários e mensagens diretas, de ambos os lados da disputa. Muitos se posicionaram, mas muitos se mantiveram isentos até o último momento, por diversas razões. E em nosso passado recente chegamos a perder o ministério da cultura durante o governo Bolsonaro. Felizmente tivemos um desfecho democrático nas últimas eleições. Eu acredito que é possível escrever sem tomar uma posição quando o escritor escolhe isso deliberadamente, porque às vezes a gente precisa até fazer um certo esforço para não colocar tanto a nossa percepção e os nossos valores no texto. No meu conto “Conciliabulum”, por exemplo, o meu protagonista é um tipo de homem que tem condutas que eu menosprezo, mas eu não posso fingir que esse tipo de sujeito e de comportamento não existem, tampouco preciso condicionar as ações do meu personagem às minhas convicções, sob pena de perder a verossimilhança e, assim, perder o leitor. Estou a aprender na prática essa cumplicidade com os nossos personagens e leitores, sem perder o alinhamento com os meus valores. Tivemos aquele posicionamento infeliz da deputada do Chega, ao criticar a programação do Teatro do Bairro Alto (TBA), e dizer que os eleitores de direita merecem uma política cultural de direita e isso me consumiu porque comecei a me questionar sobre o que é uma cultura de direita, no sentido artístico. Comecei a coletar respostas de pessoas da minha rede. Reconheço que podem existir manifestações culturais panfletárias, mas isso vale para esquerda, direita, anarquia ou o que quiser. As propagandas totalitárias, por exemplo, utilizaram-se muito do cinema como linguagem para difundir e reforçar seus valores. Uma arte de direita é só uma arte alienada, que ignora as tensões políticas e pautas sociais de sua época, ou teria de ser panfletária? E toda a arte que fala sobre temas sociais precisa ser enquadrada como arte de esquerda? O nosso direito constitucional à cultura deve ser isento de diretrizes ideológicas do Estado, para não cairmos em um fascismo cultural. Nós somos sujeitos dos nossos tempos e é isso o que faz das nossas escritas obras vivas. Por isso devemos ler mais autores vivos. Até do ponto de vista documental, considero importante que tenhamos uma posição sobre o que se passa em nosso entorno, e podemos fazê-lo sem necessariamente sermos panfletários. Acabamos por ser panfletários quando a pauta se sobrepõe à criação, mas criação sem qualquer tipo de pauta é algo poroso.

5
Que papel gostaria que Mapas Instáveis tivesse na vida de quem o lê? E o que gostaria que permanecesse no leitor depois de fechar o livro?
Quando eu fiz o Mapas, que foi todo escrito em Portugal, eu estava a pensar nas pessoas que estão desconectadas da fruição literária, os que estão afastados da leitura porque não desenvolveram esse hábito e os que pararam de ler porque dizem não encontrar tempo para isto na vida. Na juventude, quando iniciei a minha licenciatura, em razão da grande carga de leituras académicas, também me vi um pouco assim. Na altura, me relacionava com uma pessoa que me estimulou a começar a ler contos, ter sempre algum livro de contos por perto, como uma forma de fazer a literatura continuar a caber na vida. Depois que me tornei imigrante, ouvi de muitos outros imigrantes, principalmente dos que trabalhavam em escala 6×1 ou em mais de um emprego, que a leitura não era para eles. Nos tempos livres, estavam exaustos. Por isso quis fazer um livro breve, com histórias curtas, para que a leitura fosse um prazer e para que o leitor pudesse assumir um compromisso que não o exigisse tanto tempo. Tem gente que lê o Mapas no mesmo dia. Os leitores mais habituados geralmente o leem em cerca de três horas. E eu gosto que a minha obra possa circular assim e tocar as pessoas em pouco tempo, pois incluo no livro temas sociais e tenho recebido o retorno dos leitores a dizer os levou a um olhar empático diante das situações e personagens que apresento, sem ser um texto moralizante ou maniqueísta. Acho que é isso que quero que permaneça no leitor: a abertura e a curiosidade para o que emerge dos encontros analógicos, o olhar empático consigo e com o outro, principalmente para os deslocados ou out of place, e o prazer pela leitura.
*
Vivien Merciel Suarez é escritora carioca e vive em Portugal desde 2023. É cronista e colunista do jornal Público Brasil.
Cursou prescrição cultural e mestrado em Comunicação e Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade do Porto. É formada em Ciências Sociais pela UFRJ e pós-graduada em RH pelo lbmec.
Trabalhou na área de desenvolvimento artístico da TV Globo, na Casa da Música do Porto, na Casa do Saber e na consultoria Parangolé do Saber. É voluntária do projeto Vilarejo Social, de mediação literária no sistema prisional português.
Publicou textos em antologias e revistas literárias no Brasil, em Portugal, no Chile e na França e é autora dos livros Mapas Instáveis (ed. Mercador em Portugal e na França e ed. Caravana no Brasil), Ressonância em Surdina (ed. TAUP) e do conto Baile de Máscaras, selecionado pelo projeto Pé de Amora e publicado no Brasil pela Amora Livros. Mapas instáveis foi traduzido para o francês, o espanhol e, em breve, será traduzido para o inglês e publicado pela editora alemã Limen Editions.
*
Outras Entrevistas RIL em 2026:

José Luís Peixoto na livraria La Petite Portugaise (áudio), 28 de Março

José Paulo Santos: Os autores continuam na base da pirâmide. E isso não é acidental — é estrutural, 19 de Maio

Isabel Gonçalves: Acho que esta é a história de todos e não é de nenhum, 16 de Agosto

Vitorino Coragem: Fotografo melhor quando quase desapareço, 8 de Setembro


Ana Cristina Silva: O preconceito impede-nos de ver a complexidade de cada ser humano», 15 de Outubro

Olinda Pina Gil: Depois de escrever, deixo os textos em repouso, 20 de Outubro

Sérgio Almeida: O que me move é a necessidade de perguntar “e se não for bem assim?”, 21 de Outubro

Luis Zueco: Gostaria que os leitores portugueses reconhecessem no romance uma parte da sua própria História, 22 de Outubro

António Carlos Cortez: Um poema deve propor um enigma, 27 de Outubro
*


Deixe uma Resposta