

O escritor espanhol Luis Zueco está em Portugal a promover o romance histórico O Jogo da Rainha (Alma dos Livros, com tradução de Carmo Vasconcelos Romão).
Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, o (também) historiador, apelidado de “Ken Follett espanhol”, fala-nos sobre a relação entre o xadrez e a luta pelo poder, explorando a ascensão de Isabel, a Católica, e as intrigas políticas do século XV. Reflete ainda sobre o processo de escrita do romance histórico, a importância da investigação e a ligação entre a História de Portugal e de Espanha.
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O título do livro sugere uma ligação entre o xadrez e a luta pelo poder. A ideia de a rainha se ter tornado a peça mais poderosa do tabuleiro, coincidindo com a ascensão de Isabel de Castela, foi o ponto de partida do romance ou surgiu durante a sua investigação histórica?
A relação entre a rainha Isabel e o nascimento do xadrez moderno foi precisamente o ponto de partida do romance. Quando descobri que, no final do século XV, a rainha do xadrez passou de ser uma peça com movimentos muito limitados a tornar-se a mais poderosa do tabuleiro, pareceu-me uma história extraordinária. E o mais interessante era que essa transformação tinha ocorrido na Península Ibérica.
É preciso ter em conta que o xadrez é um jogo muito antigo, mas que, originalmente, não tinha nenhuma figura feminina. Sabemos que foi criado na Índia e que chegou à Europa através da Península Ibérica, por intermédio do Islão. Só no século XIII surgiu a figura da rainha, que veio substituir uma peça anterior, mas que tinha apenas movimentos limitados e defensivos.
No século XV, a rainha adquiriu uma capacidade de movimento que nenhuma outra peça possuía. Porque é que isso aconteceu precisamente nessa altura? Que relação poderia existir entre aquela revolução no jogo e uma mulher que tinha conseguido afirmar-se num mundo governado por homens? Foi a partir destas perguntas que nasceu O Jogo da Rainha. O xadrez nunca foi apenas um jogo; foi muito mais do que isso.
Isabel, a Católica, é uma figura central no contexto histórico da obra, mas os protagonistas são Gadea e Ruy. Porque escolheu contar esta história através destas personagens fictícias?
Porque me interessa contar a História a partir da perspetiva de quem a viveu, e não apenas da perspetiva de quem aparece nos livros de História. Isabel, a Católica, é uma personagem extraordinária, com uma personalidade e um percurso político estudados há séculos. Mas, se a transformasse na protagonista, o romance ficaria inevitavelmente condicionado e limitado.
Gadea e Ruy davam-me uma liberdade narrativa muito maior. Através deles, podia entrar nas ruas, nas casas, nos caminhos e nos ambientes do século XV. Podia mostrar como as decisões dos poderosos afetavam pessoas que não tinham qualquer capacidade para decidir o seu próprio destino.
Além disso, gosto que as minhas personagens principais tenham de descobrir o mundo em que vivem, que cometam erros, aprendam e enfrentem situações que nunca teriam imaginado. O leitor descobre a História juntamente com elas. A rainha está, naturalmente, muito presente no romance, mas eu queria que os verdadeiros protagonistas fossem duas pessoas que se veem envolvidas numa luta pelo poder muito maior do que elas próprias.
A ação decorre numa época marcada por intrigas políticas, alianças instáveis e disputas pelo trono. Durante a investigação para o livro, houve algum episódio histórico ou alguma personagem que o tenha surpreendido especialmente e que tenha mudado a sua visão deste período?
O que mais me surpreendeu foi descobrir até que ponto a ascensão de Isabel ao trono esteve rodeada de incerteza. Hoje conhecemos o desfecho e temos tendência para pensar que a sua chegada ao poder era inevitável, mas, quando o romance começa, ninguém a imaginava como rainha.
A Castela do rei Henrique IV era um reino dividido, com uma nobreza extraordinariamente poderosa e alianças que podiam mudar de um dia para o outro. A Coroa portuguesa desempenhava um papel fundamental. O cenário mais plausível era uma união entre Castela e Portugal, com um rei português sentado no trono castelhano.
Foi uma época em que a legitimidade dinástica, os casamentos e as relações familiares eram utilizados como armas políticas. E, no meio de tudo isto, uma mulher muito jovem conseguiu abrir caminho até se tornar rainha.
Também me interessou muito a figura da sua rival, Joana, tradicionalmente conhecida como a Beltraneja, que era a legítima herdeira do trono de Castela. Foi sepultada no Convento de Santa Clara, em Lisboa, mas o seu túmulo original perdeu-se devido aos danos provocados pelo devastador terramoto de 1755. Se tivesse sido preservado, poderíamos saber com exatidão se era ou não filha do rei, o que mudaria a História.

O xadrez é muito mais do que um elemento do enredo: permite também refletir sobre a sociedade e o poder. Até que ponto considera que a transformação da figura da rainha no tabuleiro reflete uma mudança real na forma como as mulheres eram vistas e exerciam o poder no final do século XV?
Creio que existe uma relação muito interessante, embora fosse um erro pensar que a transformação da rainha do xadrez significou que as mulheres passaram, de repente, a ter um poder semelhante na sociedade. A realidade era muito mais complexa. No final do século XV, as mulheres continuavam sujeitas a enormes limitações jurídicas, sociais e políticas.
No entanto, encontramos figuras femininas que exerceram um poder extraordinário. Isabel de Castela é o exemplo mais evidente, mas não é o único. E é fascinante que tenha sido precisamente nessa época que ocorreu uma transformação tão radical num jogo que, durante séculos, representara, de certa forma, a ordem social. A rainha tornou-se a peça mais poderosa do jogo.
Temos provas documentais sólidas, uma clara coincidência histórica, e tudo isto oferece um argumento literário maravilhoso. O romance joga precisamente com essa relação entre a realidade e a ficção.
Uma das ideias em destaque nesta obra é a origem espanhola das regras do xadrez moderno, um facto pouco conhecido por muitos. O que gostaria que os leitores descobrissem sobre a História de Espanha (e sobre o próprio xadrez) depois de lerem O Jogo da Rainha?
Gostaria que os leitores descobrissem que o xadrez, um jogo hoje praticado em todo o mundo, tem uma parte essencial da sua história ligada à Península Ibérica. Muitas pessoas sabem que o xadrez chegou à Europa vindo do Oriente, mas muito poucas conhecem o facto de as regras que deram origem ao xadrez moderno terem surgido na Espanha do final do século XV.
É uma história apaixonante, porque nos permite compreender como as ideias evoluem. O xadrez percorreu milhares de quilómetros e passou por diferentes culturas antes de sofrer aquela transformação. E foi na Península Ibérica, onde, durante séculos, conviveram as tradições cristã, muçulmana e judaica, que encontrou um ambiente particularmente interessante para o seu desenvolvimento.
Gostaria também que os leitores portugueses reconhecessem no romance uma parte da sua própria História. No século XV, as relações entre Castela e Portugal foram extremamente intensas. Houve confrontos, alianças, casamentos e disputas dinásticas. Não podemos compreender a chegada de Isabel ao trono sem ter em conta o papel de Portugal e de Afonso V, que interveio diretamente na guerra de sucessão castelhana.
Por vezes, estudamos a História de Espanha e de Portugal como se fossem duas histórias separadas, quando, na realidade, sempre estiveram profundamente ligadas. Essa história partilhada é uma das coisas que mais me interessa recuperar através dos meus romances.

Como é o seu processo de trabalho quando começa a escrever um romance histórico? Parte de um acontecimento ou de uma personagem que o fascina e constrói a história à sua volta, ou começa com uma ideia para o enredo que vai desenvolvendo posteriormente através da investigação?
Sou muito darwinista: começo com muitas ideias e ponho-as a competir entre si. Umas são descartadas rapidamente, outras incorporam aspetos de ideias diferentes, e cria-se uma espécie de seleção natural, em que acaba por prevalecer aquela que melhor se adapta ao que procuro. Tudo isto se cruza com investigação, pesquisa documental e muitas viagens. Para mim, é importante conhecer os espaços, percorrê-los a pé, compreender como estavam organizados e como se vivia nesses lugares. A minha formação como historiador e a minha ligação ao património ajudam-me muito nesta parte do trabalho.
Depois de ter a ideia bem definida, chega o momento de construir o enredo. E é aí que começa verdadeiramente o trabalho do romancista. A investigação pode proporcionar-nos acontecimentos extraordinários, mas isso não significa que tenhamos um bom romance. Precisamos de personagens, conflitos, emoções e de uma história capaz de manter o interesse do leitor.
Dedico bastante tempo à preparação da estrutura antes de começar a escrever. Gosto de saber para onde vou, embora, mais tarde, as personagens e a própria escrita me obriguem a alterar algumas coisas. Creio que um bom romance histórico exige muita investigação, mas também a capacidade de perceber quando devemos parar de investigar e começar a contar a história.
Num romance como O Jogo da Rainha, que combina personagens históricas, ficção, intriga e mistério, como organiza toda a documentação para não perder de vista o ritmo da narrativa? Tem alguma rotina ou método de trabalho que o ajude a manter o equilíbrio entre o rigor histórico e a ficção?
Este romance foi realmente complexo de escrever. Funciona como um conjunto de engrenagens que têm de encaixar na perfeição: o xadrez, o mundo dos livros no final do século XV, a política, a religião, entre outros elementos.
Sou bastante metódico, mas há algo que considero essencial: o leitor não tem de conhecer tudo aquilo que investiguei. Esse é um dos maiores perigos do romance histórico. Quando passamos meses a estudar uma determinada época, sentimos a tentação de incluir demasiada informação. E um romance não é um livro de História. Quero que a História não se note no meu romance, mas que se sinta.
Para mim, a investigação deve estar ao serviço da narrativa. Se preciso de explicar um acontecimento histórico, procuro fazê-lo através daquilo que as personagens vivem, das suas conversas ou das consequências que esse acontecimento tem nas suas vidas. Não quero interromper a história para dar uma lição.
Digo sempre que os romancistas históricos não escrevem sobre datas e nomes de reis, mas sobre pessoas que amaram, sofreram, tiveram medo e lutaram por aquilo em que acreditavam. O meu objetivo é fazer com que o leitor sinta como era viver noutra época. Que, durante algumas horas, possa entrar naquele mundo e esquecer o presente.
Li que costuma escrever muito cedo e que precisa de ter livros, documentos e mapas à sua volta. Até que ponto o lugar onde escreve influencia o seu processo criativo? E o que faz quando uma história ou uma personagem deixam de evoluir como esperava?
O lugar onde escrevo influencia muito o meu trabalho, porque tenho a sorte de viver num castelo medieval que restaurei ao longo de mais de dez anos. Quando o comprei, estava em ruínas, e recuperá-lo foi uma experiência que mudou a minha forma de me relacionar com a História.
Para mim, a História e o património sempre estiveram ligados à literatura. E viver num castelo permite-me manter essa ligação de uma forma muito direta.
Costumo escrever muito cedo, quando ainda há silêncio e me consigo concentrar sem interrupções. Gosto de trabalhar rodeado de livros, documentos e mapas. Embora utilize ferramentas digitais, continuo a precisar de ter muitos materiais fisicamente à minha volta. Por vezes, basta consultar um mapa ou abrir um livro para encontrar a solução para um problema narrativo.
E, quando uma história não avança, procuro não forçá-la. Muitas vezes, o problema é não conhecer ainda suficientemente bem a personagem ou haver algo na estrutura que não funciona. Nesses casos, deixo de escrever, volto à investigação, vou dar um passeio ou dedico-me a outra coisa durante algum tempo.
Aprendi que escrever um romance exige paciência. Há dias em que avançamos imenso e outros em que mal conseguimos resolver uma cena. Mas até esses dias fazem parte do trabalho. Por vezes, uma boa ideia surge precisamente quando deixamos de a procurar. A minha mente está sempre a trabalhar, mesmo quando estou a fazer outra coisa. Foi algo que aprendi ao longo dos anos.
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