

O poder teme o ridículo, e a poesia pode ser uma das suas armas mais certeiras. Em O Rei vai no (The Poets and Dragons Society), o seu novo livro, Sérgio Almeida recorre ao humor, à ironia e à sátira para questionar o poder e pôr a nu as suas contradições.
Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, o autor, que também é jornalista, fala sobre o papel da poesia, a relação entre jornalismo e escrita literária e a importância de desconfiar daquilo que tantas vezes damos como adquirido.
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O título parece brincar com a linguagem e com a ideia de poder, como se o próprio discurso tropeçasse nas palavras. Como nasceu este livro?
Mais do que desmontar as falácias do poder, quis apontar aquilo que os seus detentores mais temem: o ridículo. O que não deixa de ser curioso, porque tudo nessas figuras, da pose enfatuada aos discursos vazios, se presta enormemente ao ridículo. Talvez por ter caído em desuso, a sátira é um recurso que me interessa muito (adoro andar em contra-mão, excepto na auto-estrada). Já a tinha experimentado na ficção A Arte do Nada, mas aplicá-la à poesia deu-me particular gozo, porque é um género em que o (pretenso) sagrado também se tende a instalar. E eu vou pouco à missa, confesso.
Enquanto jornalista, trabalha diariamente com palavras que têm de informar. Na poesia, pode permitir-se a ambiguidade. Quando escreve um poema, consegue desligar o jornalista ou é precisamente o olhar atento à realidade que alimenta a sua escrita?
É curiosa essa pergunta, porque um dos poemas de O Rei vai no, intitulado “Alertas poético-noticiosas de última hora”, aborda precisamente essa relação tantas vezes próxima entre a realidade quotidiana e a fantasia poética. Procuro manter uma distância cautelosa entre ambas, mas a poesia nem sempre pede licença para entrar, o que me obriga a estar mais vigilante do que gostaria.
Como é o seu processo de escrita na prática? Escreve com regularidade, em horários definidos? E até que ponto reescreve um poema antes de o dar por terminado?
Gostava de dizer que sigo à risca a máxima de Plínio, o Velho de “nem um dia sem uma única linha”, mas não é de todo verdade. Talvez por ser o meu ofício dominante, posso passar longas temporadas sem escrever fora do campo jornalístico. Sou como uma esponja que, em vez de absorver líquidos, vai acumulando o o que vê, lê e escuta – quando a minha família se queixa de que estou ainda mais rabugento do que o habitual, sei que isso significa que chegou a altura de voltar à escrita.
Em O Rei vai no, que papel desempenham o humor e a ironia na sua forma de olhar para o mundo? A escrita satírica nasce mais da observação do quotidiano ou da necessidade de questionar aquilo que damos como adquirido?
O humor é a minha maneira de desconfiar com boas maneiras. Parto sempre do que ouço e vejo todos os dias, porque o quotidiano é um manancial inesgotável de solenidades ridículas, mas o que me move é a necessidade de perguntar “e se não for bem assim?”. A observação dá-me a matéria; a ironia dá-me a distância; e o poema é o sítio onde as duas se encontram para ver quem ri por último. Raramente é o rei, que vai nu sem disso se dar conta.
Tem explorado diferentes formas literárias, da poesia à prosa poética, passando pelos contos e pelas novelas, além do trabalho desenvolvido no coletivo Sindicato do Credo. O que é que a poesia lhe permite fazer que os outros géneros não permitem?
Com a poesia, posso deixar a frase em suspenso. Na prosa, mesmo na mais poética, há um contrato de continuidade: quem lê espera que a história avance, que as pontas se atem. No poema posso interromper, cortar, deixar o essencial fora da frase e confiar que o silêncio trabalha por mim. É um género onde o que não se diz pesa tanto como o que se diz. E isso interessa-me muito. O Sebastião Alba dizia que “só a poesia demora”. E há nessa visão muito de certeiro, pois ela permanece quando tudo o mais for engolido pela espuma enegrecida dos dias.
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