A REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA entrevistou o poeta, professor e crítico literário António Carlos Cortez a propósito de Daimon, volume que reúne três décadas de poesia. Ao revisitar o seu percurso, identifica diferentes fases e transformações formais, mas reconhece uma continuidade temática e rítmica que confere unidade à sua escrita.

António Carlos Cortez explica ainda como a criação nasce da experiência, e afirma que poesia é um trabalho de concentração da vida nas palavras, capaz não apenas de revelar, mas também de ampliar a realidade e propor enigmas ao leitor.

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Daimon reúne trinta anos de poesia, escritos em diferentes fases da sua vida. Ao reler estes poemas e reuni-los num único volume, que continuidades e transformações identifica na sua escrita?

É uma excelente pergunta. Creio que muito mudou e nada, de substancial, terá mudado. Isto é: se posso identificar pelo menos três fases na minha escrita (uma 1ª fase a que correspondem os poemas que estão nos dois livros que inicialmente publiquei, e que são poemas saídos de um clima de aprendizagem versificatória, alguns datados de 1993, 94, 96, retrabalhados depois para integrar Ritos de Passagem, de 99, volume de estreia e poemas, os de UM BARCO NO RIO, de 2002, com textos já um pouco divergentes dos ritmos davidianos desse meu livrinho inaugural; seguindo-se depois uma fase que abrange uma tetralogia (À FLOR DA PELE, de 2008, DEPOIS DE DEZEMBRO, de 2010, LINHA DE FOGO, de 2012 e O NOME NEGRO, de 2013), onde formas clássicas (o soneto, a quadra, a cantiga) se harmonizam com formas modernas (o poema em prosa), e se, já mais recentemente talvez ao poema em prosa (CORVOS COBRAS CHACAIS, de 2015, JAGUAR, de 2019 ou muitos poemas em prosa insertos em Diamante, de 21) sobrevenha o poema longo, caudaloso, julgo que há um universo lexical, um ritmo métrico, certos temas (o tempo, as cidades, o corpo, o sexo, a violência do real, a meditação sobre a poesia e o seu fazer, a música, os desencontros) que conferem unidade e coesão a um percurso em que o fascínio sobre as formas poéticas da historicidade literária é evidente.

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Porque sentiu que este era o momento certo para publicar Daimon?

Este livro estava em preparação há 5 anos. Jorge Reis-Sá, coordenador da colecção Plural, da INCM, convidou-me em 2021 para reunir o que tinha publicado. Seriam 20 anos de poesia. Sucede que eu publiquei nesse ano poesia inédita e tive de deixar correr questões relativas a contratos de edição que tinha com a Dom Quixote.

Devo ao Jorge Reis-Sá ter insistido na ideia de reunir quase a totalidade do que escrevi e a ele ficarei devendo a feliz coincidência de Daimon ser publicado nestes meus 50 anos.

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O título remete-nos para uma voz interior, um guia. Que relação estabelece entre esta ideia e a forma como entende a criação poética?

DAIMON remete, como esclarece Silvina Rodrigues Lopes no prefácio, para o espírito socrático, o guia espiritual. Porém, esse guia é igualmente a força da linguagem, força de nomeação.

Yeats é aqui outra fonte inescapável. É Yeats, aliás, o mestre oculto de algumas concepções do poético que atravessam o livro. A ideia de voz interior, de resto, está presente em livros que fui publicando e em cujos poemas o poeta é figurado como um iniciado, seja sob a forma do Jaguar, seja sob a forma do Condor. O próprio poema como diamante, numa homenagem a Rimbaud, ou a ideia do poema como Nome Negro, espécie de vórtice, ou buraco negro que suga, para dentro de um mundo de linguagem que atravessa os tempos, isso talvez sejam outros modos de nomear o Daimon. Mas que não se confunda com o demoníaco, coisa que erros de semântica podem suscitar. A igreja católica associou o Daimon a esse que teria vindo, feito Lúcifer, como figura da divisão.

Ora, nos meus livros, o poema é um labor verbal em torno de cujas palavras importa reunir, ou concentrar, a vida e a poesia. Reunir, jamais dividir. Até porque, para lembrar Gastão Cruz, meu mestre, as linhas entre a vida e a poesia são ténues.

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Fale-nos um pouco do seu processo criativo. Parte de uma imagem, de uma experiência vivida, de uma intuição ou do próprio trabalho com as palavras? E, já agora, como sabe que um poema chegou à sua forma definitiva?

A minha poesia nasce de dois momentos, ou melhor, de duas situações: há livros de perda e de crise (Depois de Dezembro, por exemplo) e há livros de contemplação do mundo; contemplação que exige depois a meditação desse mundo (é o caso do inédito TERRAPLANAGEM, que aqui adiciono, fechando o livro). Há também poemas que nascem de uma espécie de banda sonora que, por um motivo qualquer, me acompanha durante certo tempo e me faz escrever como se eu estivesse no tempo dessas músicas, revendo épocas da minha vida ou ficcionando o que não vivi (poemas de JAGUAR, ou todo o livro que é SKIN DEEP, de 2021, e ainda secções de DIAMANTE, também de 21). Mas pode suceder também que os poemas nasçam do diálogo com outros poemas de outros autores, ou nasçam da observação dos factos da realidade mais literal. TERRAPLANAGEM é um conjunto de 22 poemas longos que são, em grande medida, meditações sobre a História, as artes em tempo tétrico. Terraplanagem do real, do humano. No fundo, o que me rodeia faz-me escrever. Ou ficcionar o que, vendo e vivendo, passa a ser depois um real totalmente novo, de palavras que transfiguram esse real vivido ou imaginado.

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Depois de tantos anos a escrever e a pensar a poesia, enquanto poeta, professor e crítico literário, mudou a sua conceção do que um poema pode revelar?

Não mudou. Um poema, para além de revelar, amplia. Um poema deve propor um enigma. É a proposição de um enigma.

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