

Dora Gago está de regresso com Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? (The Poets and Dragons Society). Em entrevista à REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA, a escritora revela de que forma a experiência de viver em Macau, particularmente durante a pandemia e o confinamento, influenciou a construção da obra.
Dora Gago fala ainda sobre as três personagens femininas que dão vida à narrativa, o diálogo com referências literárias como Camilo Pessanha, Maria Ondina Braga e Lídia Jorge, e o regresso a Portugal, que marcou um novo impulso na sua criação literária.
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O título “Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?” recupera um verso de Camilo Pessanha. O que a levou a escolher precisamente este verso para dar nome ao romance?
Este foi um dos versos que me impressionou muito, quando estudei Camilo Pessanha, ainda no ensino secundário, quando tinha uns 17 ou 18 anos. O outro foi «Floriram por engano as rosas bravas», que serviu de título a um livro de contos publicado em 2022. Durante muito anos, esses dois versos viveram dentro de mim, sem saber muito bem o que poderia fazer com eles. Foi depois de ter vivido uma década em Macau e de já estar numa fase avançada do romance que percebi o modo como o verso de Pessanha se encaixava, como continha nele a ideia simbólica de perda (aos mais diversos níveis), das quedas e do processo para nos reerguermos delas. No início, este romance começou por ser um conto com um outro título.
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Macau é um território muito presente na sua literatura e, neste romance, surge num contexto particularmente singular: o da pandemia e do confinamento, mas também de um tempo de profundas desigualdades sociais. De que forma este período alterou o seu olhar sobre aquela região e influenciou a construção do romance?
Em Macau, o período da pandemia foi particularmente duro. Sim, é verdade que o foi um pouco por todo o lado, mas a rígida política da «Covid Zero» que foi adoptada pela China gerou situações que contadas pelas bandas do ocidente parecem pura ficção. Foi também um tempo em que as desigualdades sociais que estavam de certo modo camufladas ficaram evidentes. O facto de ter permanecido durante dois anos encerrada no exíguo espaço de cerca de 30 Km2, mudou a minha percepção do território. Quando a pandemia começou, eu já vivi em Macau há 8 anos, mas viajava muito. Vinha duas vezes por ano a Portugal, participava com frequência em Congressos Internacionais nos Estados Unidos, ou em vários países da Europa. Aproveitava também alguns fins-de -semana para conhecer a Ásia. Macau era a plataforma para o mundo, para conhecer as mais diversas realidades. De repente, tudo isso mudou. O mundo estreitou-se imenso e houve uma certa ilusão de liberdade que se dissipou. Foi tempo de olhar para dentro e ao redor, de conhecer a fundo pequenos pormenores do território que pareciam invisíveis. Foi também a altura em que visitei a campa de Pessanha no Cemitério de São Miguel Arcanjo. E foi tudo isso que esteve na base da decisão de regressar a Portugal, uma sensação de que era necessário escolher entre a carreira ou a vida.
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Ana Cláudia, Jenny e Kate são três mulheres com percursos, origens e experiências muito diferentes, mas que acabam por se cruzar numa mesma geografia humana e emocional. O que procurou explorar através destas três personagens?
A Ana Cláudia, que é bióloga, mas também ex-toxicodependente e tem algumas problemas de esquizofrenia, é talvez a minha personagem mais antiga. Ao contrário da Jenny e da Kate que se inspiraram em pessoas reais, ela é pura ficção. Talvez por isso, senti vontade de lhe dar alguma coisa minha que foram algumas memórias rurais do barrocal algarvio, de um tempo que conheci, anterior à luz eléctrica – que no sítio onde vivi, localizado a uns 5 kms de São Brás de Alportel, só chegou por volta de 1983. Um Algarve muito diferente do turístico e estereotipado. Esse Algarve surge magistralmente representado em O Dia dos Prodígios de Lídia Jorge. Daí também a serpente alada que se junta a outra real que eu conheci para assombrar Ana Cláudia e voar pelos céus de Macau, juntamente com o dragão.
Mas regressando a Ana Cláudia, ela surgiu num romance que escrevi por volta do início de 2000 e que nunca publiquei. Depois, protagonizou um dos contos do Travessias, contos migratórios, publicado em 2014. Foi uma personagem que nunca me deixou, mas não sabia muito bem como lidar com ela. O seu passado na droga e a esquizofrenia intimidavam-me. Até que ela se foi revelando aos poucos e assumiu o centro do romance. Representa a necessidade de se enfrentarem os fantasmas, os erros, de sermos, por vezes, como a fénix. Por sua vez, Jenny é a voz dos subalternos, dos silenciosos, a viverem nas sombras, que são os alicerces das sociedades, mas que ninguém nota. Kate, a jornalista americana que vem para Macau resgatar uma paixão perdida, talvez represente a faceta obsessiva das paixões, a manipulação. Todas elas são mulheres deslocadas que chegam a Macau, território de exílios, de confluência das mais diversas culturas e raças, para recomeçarem novas vidas.
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A sua obra estabelece um diálogo com diferentes referências literárias, nomeadamente Camilo Pessanha, Maria Ondina Braga e Lídia Jorge. Que importância têm estes autores no seu percurso enquanto escritora?

Sobre Pessanha já falei um pouco, é o grande poeta simbolista, os seus versos marcaram-me e a sua obra assumiu uma outra dimensão por estar em viver em Macau, o espaço onde ele viveu, escreveu e morreu. Acabou por ser uma presença forte para mim.

Quanto a Maria Ondina Braga e a Nocturno em Macau (que foi recentemente reeditado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda), conheci o livro em 1991, após uma viagem a Macau que ganhei num concurso de escrita promovido pelo IPJ e pela «Comissão dos Descobrimentos Portugueses».
Nessa altura, era aluna da Universidade de Évora, tinha 19 anos e foi tudo um fascínio. Ao regressar de Macau, ainda em estado de levitação, encontrei na livraria esse romance acabado de sair, que parecia ter sido escrito para mim. Tornei-me admiradora da obra de Maria Ondina, que ainda conheci pessoalmente, num Colóquio de escritores, em Guimarães. Depois, estudei também a sua obra em vários projectos de investigação.

Quanto a Lídia Jorge, mergulhei mais profundamente na sua obra, durante a pandemia, por integrar, como arguente, o júri da tese de doutoramento de Conceição Brandão, intitulada Entre o silêncio e a fulguração da palavra em Lídia Jorge.
Então naquele contexto de clausura, estando há quase dois anos sem sair de Macau, a obra de Lídia Jorge, particularmente a mais ligada ao Algarve , como é o caso de O Dia Dos Prodígios, O Cais das Merendas, ou O Vento Assobiando nas gruas, teve em mim um impacto muito forte.
Foi um encontro muito denso com as minhas raízes, um revisitar de tempos e espaços que viviam dentro de mim. Se a Maria Ondina e o Pessanha foram asa, a Lídia Jorge foi raiz.
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Por fim, uma curiosidade minha: o seu percurso tem sido marcado pela docência, pela investigação e pela criação literária. Como consegue conciliar estas diferentes dimensões da sua vida?
Enfim, vai-se conciliando como se pode. Mas, nos últimos quatro anos, desde que regressei a Portugal, a escrita, que foi relegada para segundo ou terceiro plano durante muito tempo, jorrou dentro de mim com uma força enorme, uma pulsão, uma necessidade e instinto que já não quero reprimir em detrimento do resto.
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