
Que livros pretende ler este verão?
As minhas leituras não se separam da minha vida nem da minha prática profissional. Leio sempre com um propósito: unir o útil ao agradável, isto é, procurar em cada livro não apenas um prazer estético ou intelectual, mas um impacto real na minha forma de viver, de pensar e de agir — enquanto homem, escritor, professor e Mediador Linguístico e Cultural.
Não leio por distração. Leio para compreender melhor o humano.
Este verão desejo regressar a livros que já li — por vezes em mais do que uma língua — e que continuam a acompanhar-me como referências vivas:
Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach
Uma obra intensa, inquieta e profundamente existencial. A viagem não é apenas geográfica, é interior. Há uma errância emocional que me interpela enquanto mediador: a fragilidade do ser humano, o desenraizamento, a procura de sentido. É um livro que me desafia a escutar melhor o outro nas suas rupturas.
Le Miracle Spinoza, de Frédéric Lenoir
Um livro decisivo na minha relação com a filosofia. Espinosa surge aqui como um pensador da liberdade lúcida e da alegria ética. Num mundo dominado pela reatividade emocional, esta leitura ajuda-me a reforçar práticas de mediação baseadas na compreensão, não no julgamento.
La paix ça s’apprend !, de Thomas d’Ansembourg e David Van Reybrouck
Um livro fundamental no contexto do meu trabalho. A paz não é um ideal abstrato: aprende-se, pratica-se, constrói-se. Esta obra dialoga profundamente com a Comunicação Não Violenta e reafirma algo essencial: a transformação social começa no interior de cada pessoa.
Mantenho, aliás, um contacto permanente com a literatura francesa, de onde continuo a beber imenso — pela clareza do pensamento, pela densidade filosófica e pela capacidade de interrogar o mundo com rigor e sensibilidade.
E procuro sempre acrescentar a poesia às minhas leituras — porque é nela que a linguagem se torna mais próxima da verdade do humano.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
As minhas recomendações não são neutras: refletem o meu percurso, as minhas inquietações e o meu compromisso com a reflexão, a educação e a humanidade.
Serendipidade – 50 crónicas do acaso e do ocaso, de José Paulo Santos
Este livro é um lugar de encontro entre pensamento e vida. As crónicas que o compõem nascem da observação do quotidiano e da necessidade de refletir sobre o nosso tempo. Nele, cruzam-se filosofia, educação, ética e poesia, num apelo constante à consciência e à responsabilidade humana.
Ano Comum, de Joaquim Pessoa
Um livro que desejo revisitar com a mesma emoção da primeira leitura. Joaquim Pessoa, meu querido amigo, tem a rara capacidade de transformar o quotidiano em matéria poética. Neste livro, a poesia devolve-nos à simplicidade essencial — e lembra-nos que viver é, também, saber sentir com profundidade o que aparentemente é comum.
Radicalisation de la jeunesse, de Michel Fize
Uma leitura essencial para quem trabalha com jovens e em contextos educativos. Michel Fize analisa os fenómenos de radicalização com rigor sociológico, permitindo-nos compreender melhor as tensões que atravessam a juventude contemporânea. Para mim, é uma ferramenta de trabalho e reflexão imprescindível.
No fundo, todas estas leituras — as que revisito e as que recomendo — encontram-se num mesmo ponto: a necessidade de pensar o mundo para melhor agir nele.
A filosofia está sempre presente, a literatura acompanha-me, a poesia ilumina-me — mas tudo isso só faz sentido se se traduzir numa prática mais consciente, mais justa e mais humana.
Porque ler, para mim, nunca foi um ato de evasão. É, antes de tudo, um compromisso com a vida.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Ana Maria Pereirinha.