
Que livros pretende ler este verão?
Vou ler Réu Confesso, a biografia do Marquês de Pombal por Camilo Castelo Branco. Cheguei tarde na vida a Camilo Castelo Branco. Mas quando cheguei, deslumbrei-me. Deliro com a linguagem crua, com o humor satírico, com as personagens e histórias rurais, com um espírito transgressor que, no fundo, tem saudades de hábitos e valores ancestrais.
Memórias de Adriano, de Margarite Yourcenar. À Yourcenar, pelo contrário, cheguei muito cedo. Li quase tudo (ou talvez mesmo tudo) quando adolescente e jovem adulta. Mas há uns meses, por alguma razão, li umas páginas do livro de memórias Souvenir Pieux que tenho na estante. E se me lembro (vagamente) das histórias que Yourcenar contava nos livros, já não me lembrava do virtuosismo da escrita, que é elegante, aristocrática, sedutora. E pensei que tinha de reler alguma coisa da autora. Vai ser agora.
Yvette, de Guy de Maupassant. Outra descoberta tardia. Comprei há meses um livro de contos de Maupassant traduzidos para inglês e fiquei rendida. Tanto que nem me desagradou o formato de contos, porque normalmente prefiro romances. Ando num tempo francófilo da minha vida, o que ajuda.
E saindo dos clássicos: Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida. É um livro que quero ler há anos, a autora é outra absoluta virtuosa das palavras. Por alguma razão nunca o tinha comprado. Este ano – correndo apressada nas bancas da feira do livro para completar uma promoção dos livros que um dos meus filhos estava a comprar – dei de caras com este Luanda, Lisboa, Paraíso e pensei que é o momento certo para nos encontramos.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
(há um spoiler ou dois)
Persuasion, de Jane Austen (há tradução pelo menos na Relógio D´Água)
É o último livro de Jane Austen, publicado postumamente, e a sua história mais madura. A heroína, Anne Elliott, já está em idade para ser considerada (na altura) quase, quase solteirona: tem uns vetustos 27 anos. O herói, Frederick Wentworth é um self made man (única aparição desta categoria nas personagens de Jane Austen), militar que fez carreira e fortuna na Marinha. É, dentre os homens, a personagem mais interessante de Austen e, juntamente com Darcy de Pride and Prejudice, o único homem impetuoso e masculino que afinal não é um traste. A irmã de Frederick, casada também com um almirante e muito bem tratada pela sua criadora literária, é claramente uma mulher feminista antes de tempo, opinativa e tendo acompanhado o marido nas suas viagens pelos mares ao invés de ficar recatadamente à espera em casa.
Persuasion tem o humor de todos os livros de Austen, e faz paródia com as pretensões sociais do pai baronete de Anne (arruinado, claro, e profundamente snob), das suas irmãs e de outras personagens avulsas. Nisso vai tal qual os restantes romances de Austen. Mas é diferente porque é um romance de redenção. Anne e Frederick são um par romântico mais velho que os outros de Jane Austen. Já se tinham apaixonado oito anos antes, magoaram-se valentemente um ao outro a seguir, e, no entanto, no fim, conseguem perdoar-se e reconciliar-se. Um final demasiado otimista e improvável, mas por alguma razão é ficção.
The Sympathizer, de Viet Thanh Nguyen
Foi uma das minhas mais felizes descobertas dos últimos anos. Já tinha lido The Refugees (que não tem nada que ver com vagas de refugiados dos últimos anos, descansem), de Viet Thanh Nguyen e fiquei viciada. The Sympathizer traz-nos a história de um agente vietcong infiltrado na casa de um político importante do Vietname do Sul e, depois, na comunidade vietnamita que fugiu para os Estados Unidos quando estava Saigão a cair (descrição de queda que nos faz lembrar umas certas imagens de americanos, e outros amigos ocidentais, abandonando Kabul).
As tragédias e violências sucessivas são contadas com humor. A narrativa não nos dá sossego (fico sem saber se é Viet Thanh Nguyen que tem uma imaginação assombrosa ou se é o cruzamento do ponto de vista do sudeste asiático com a vida ocidental que produz tais maravilhas), a escrita é deliciosa e (igualmente indispensável neste tempo de moralismo woke e indignação ultraconservadora) não está a fazer fretes identitários, nem a bradar contra o colonialismo e o imperialismo, nem a vender marxismo. O que não quer dizer que não espete o dedo nas feridas da vida e da política americana. O que só lhe fica bem.
A Informadora, de Lindsey Davis
É uma perfeita leitura de verão: divertida e instrutiva. Para quem, como eu, gosta de literatura policial, faz quase o pleno. A informadora (como quem diz, a detetive) é Flávia Albia, a filha adotiva de Marcus Didius Falco e da sua patrícia mulher Helena. Flávia herdou a atividade do seu pai adotivo (objeto da primeira remessa de livros de Lindsey Davis, os primeiros quatro também traduzidos para português) de investigar crimes, depois de este se ter amaciado após a elevação à classe equestre (herdando ele próprio também o negócio de leilões do seu pai; leiloeira que, de resto, dá alguns problemas num dos livros seguintes de Flávia Albia).
O que tem este livro de particular, além de uma mulher numa profissão tradicionalmente de homens? Passa-se na Roma antiga, no ano 89 da nossa então jovem era, e passeamos com Flávia Albia pelo monte Aventino, pelos templos, pelos mercados. E também pelos hábitos, instituições civis e vicissitudes da vida romana, incluindo o ofício de magistrado plebeu – no caso, acontece ser Manlius Faustus, que se torna o parceiro não oficial das investigações de Flávia Albia. Uma delícia. E aprende-se quase tanto sobre o império romano como a ler Mary Beard.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.