
Que livros pretende ler este verão?
Vou agora mesmo de férias e levo dois livros na mochila: do Senhor Vulcão As Raposas Estão a Arder, poesia, editora URUTAU, que vai ser lançado no próximo dia 20 de Junho na Galeria Monumental e é perfeito para o início da época dos fogos: é sobre o fogo, os concretos fogos que nos devastam.
Sobre outro fogo, o da alma, do Amor Completo, Beguinas – Memoria Herida, da teóloga espanhola Maria Cristina Inogés Sanz, (PPC Editorial), um tema que me fascina há décadas de uma autora fascinante também.
Lá mais para diante, espero em Agosto ter mais alguns dias para poder ler (só) por gosto e tenho alinhados, também em resultado da Feira do Livro, contos de Machado de Assis, Singular Ocorrência e Outras Histórias de Mulheres (Tinta da China), Ana Cláudia Santos, A Morsa (Companhia das Letras), e romances de Beppe Fenoglio, Uma Questão Privada (Edições do Saguão, trad. de Sofia Andrade e Andrea Ragusa), e Soeiro Pereira Gomes, Obras (Edições Avante), autor que me apetece revisitar com mais atenção.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Tenho para mim que a esperança e a humanidade são o contrário da auto-ajuda e que andamos a precisar MUITO de esperança fundada contra a barbárie, e não de balelas. Três livros e autores que me têm realmente ajudado a navegar o caos: nenhum deles é ficção, mas todos nos trazem narrativas de possibilidades reais e de sobrevivência enquanto indivíduos e enquanto espécie, num mundo em derrocada acelerada que é o nosso
Anna Lowenthaup Tsing, O Cogumelo no Fim do Mundo – Viver nas Ruínas do Capitalismo (Crosta Editores, Trad. de Henrique Fernandes). A autora é uma antropóloga americana e conseguiu, numa investigação pelos interstícios de territórios marginais, aparentemente falidos, económica e socialmente, escrever um livro que nos faz prestar atenção e olhar de maneira diferente para os vários sistemas com que se tecem realidades que não valorizamos normalmente. Conseguiu também um êxito internacional com este livro, que está igualmente a fazer sucesso por cá – mesmo que não se dê por ele nos tops (lá está:), e muito justamente.
Paula Godinho, O Impossível Demora Mais – Antropologia para o Futuro, correntes frias da realidade e correntes quentes da esperança (Tigre de Papel). Outra antropóloga, esta portuguesa, com trabalho notável, desde há décadas, sobre as memórias, e que é ainda por cima uma escritora. Neste livro, que reúne etnografias da resistência, mundos e formas de organização alternativas ao capitalismo ultraliberal, mostra-se que eles não só são possíveis (contrariando o “não há alternativa”), como existem já, vivos. A lembrar o poema de amor de Manuel Gusmão que diz “Contra todas as evidências em contrário, a Alegria”, diz-se aqui, no Posfácio de Raúl Contreras Román: “Deixamos o pessimismo para aqueles e aquelas que não se comovem.”
Davide Enia, um autor siciliano que é um homem do teatro e (eu acho que muito por isso) equilibra magistralmente a narrativa sobre realidades das mais cruéis e violentas da nossa era com uma crença na humanidade e no poder das pessoas comuns a que eu só consigo dar o nome de esperança. Uma esperança que não se rende ao medo. Tem dois livros publicados cá: Notas Sobre Um Naufrágio (Trad. de Tânia Ganho), fruto de três anos de recolha de histórias de naufrágios e salvamentos de migrantes na ilha de Lampedusa, e Autorretrato – Instruções para sobreviver a Palermo (Trad. minha), relato autobiográfico de uma infância e adolescência numa cidade dominada pelo medo e pela máfia. São ambos marcantes e publicados pela D. Quixote.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: João Nuno Azambuja.