
Que livros pretende ler este verão?
É difícil planear porque embora tenha sempre alguns à espera de serem lidos, no Verão encontro sempre algumas livrarias ou alfarrabistas e acabo por mudar para esses, ou ler vários ao mesmo tempo, porque não os quero largar ou acabar.
Gosto de ler sem marcador, portanto demoro-me em frases e passagens que já tinha lido…. Gosto de me atardar em frases bonitas, poéticas ou que fazem relfectir ou sonhar. Leio devagar.
Os livros que tinha planeado ler este Verão eram Alegria Breve, de Vergílio Ferreira, e Mau tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Li o primeiro e depois, como estava em França de férias, entrei num alfarrabista e comprei o Rue des boutiques obscures, de Patrick Modiano (não encontrei tradução para português). Os dois sobre a profundidade da vida, mas o primeiro para ler devagar, o segundo mais depressa porque queremos saber o fim (no primeiro não).
O Mau tempo no canal ainda está à espera de ser lido…
Também comprei o Les mots, de Sartre, autobiografia comovente que ajuda a compreender melhor o personagem e a pessoa.
Depois mudei para Isabel Rio Novo, A matéria das estrelas. Gosto muito desta escritora e o modo como alia os seus personagens à História. Inevitavelmente precipitados no destino que nós já conhecemos, em todo e esplendor da complexidade do ser humano. Esperamos pela visita da Isabel na nossa livraria muito em breve para nos falar desta e outras obras.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Memórias de Adriano/Mémoires d’Hadrien, de Margerite Yourcenar: comecei a ler (sem marcador…) uma antiga edição deste livro em português e fiquei fascinada com a beleza do texto. Perguntei-me se encontraria a mesma beleza da escrita em francês, se seria por acaso o tradutor mais inspirador que a escritora original. Fiquei com medo de pegar na versão francesa, mas encontrei uma antiga edição “livre de poche” num mercado de rua em França. Recomecei quase, porque queria saber se o texto em francês me faria o mesmo efeito. Recomendo ler este livro sem marcador para poder ter o prazer de reler certas passagens, ou de retomar certos reflexões suscitadas pelo sábio imperador, ou pela sábia escritora, não se sabe bem a fronteira entre um e outro, e essa fusão entre narrador e escritor é também interessante e bonita. Não me identifico nem com um nem com outro, como normalmente se faz quando se lê um livro, mas ambos me inspiraram como personagens e narradores. Perfeito para o Verão porque se pode retomar a qualquer momento e em qualquer página do livro, a ritmo lento. Deveria ser leitura obrigatória, mas a que idade, não posso dizer.
Teolinda Gersão: qualquer livro, pode ser um de histórias curtas para o Verão, entre dois mergulhos: A mulher que prendeu a chuva, Os teclados e três histórias com anjos, ou (o mais recente) Histórias de ver e andar… ou, se estiver em Lisboa, visitá-la com A cidade de Ulisses. Gosto de tudo nos livros dela. O modo como as histórias evoluem, como descobrimos os personagens gradualmente de maneira cada vez mais íntima e profunda (muitas vezes o narrador é o personagem principal). Que seja psicanálise, arte, música… tudo e todas as disciplinas se adaptam e cabem bem nestas histórias onde entramos curiosos e saímos com algo mais.
Quem rasgou os meus lençois de linho, de Dora Gago. Também óptimo para ler no verão: uma viagem a Macau, um pouco da nossa História e da nossa cultura lusófona também, um pouco de saudade, sobre escolhas e experiências da vida, num ambiente sufocante.
E uma recomendação para os que gostam de livros como tu, Nelson: Tiré de faits irréels, de Tonino Benacquista: um editor perdido na crueldade do um mercado feroz, com muita ironia e sentido de humor. Não conhecia o escritor e adorei. Para os que gostam de livros. Acho que não está traduzido para português…
Recomendo mais que tudo, que se leia poesia: Camões, os Fernandos Pessoas, aproveitem as férias para ir mais longe: Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Sophia, Adília Lopes, etc, e viajar além para outras lusofonias: Alda Lara, Ana Paula Tavares, Carlos Drummond de Andrade, e muitos, tantos outros, é pena passar ao lado de uma poesia tão variada e rica. Um poema, um verso, um mergulho!
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.