[leituras de verão] As sugestões de Sofia Melo

Que livros pretende ler este verão?

Sei que, por mais planos que faça e desejos que tenha como leitora, a concretização fica sempre aquém das listas que, muito metodicamente, elaboro. Assim, e tentando ser mais realista, vou tentar ler os seguintes livros:

Espelho partido, de Mercè Rodoreda, uma autora catalã que descobri numa outra obra, A Praça do Diamante, e de quem fiquei irremediavelmente fã.

Embaixada a Calígula, de Agustina Bessa-Luís, pois estive imensos anos à espera da reedição deste livro, esteve esgotado muito tempo e nem nos alfarrabistas encontrei (confesso que foi uma busca de anos); chegou a hora e já o tenho em mãos e com a autora vou de viagem até Espanha, França e Itália; trata-se também de um relato de uma viagem real, que a autora fez para participar (em 1959) num congresso de escritores em França, mais concretamente em Aix-en-Provence. No prefácio do livro, Guilherme de Oliveira Martins diz: «(…) É Fílon de Alexandria que acompanha os passos de Agustina (…) Mas numa tão difícil embaixada vai haver outros companheiros decisivos, que ajudam ao espírito crítico: Montaigne, Stendhal, Dante, Savonarola, São Francisco de Assis, artistas, reis, guerreiros. As paisagens, os monumentos, as obras de arte, as pessoas, as cidades, os costumes, nada passa indiferente nesta reflexão crítica, de uma deambulação espantosa (como diria Alberto Vaz da Silva) onde o essencial se mistura com a vida.».

Em todos os sentidos, de Lídia Jorge, um livro de crónicas de uma escritora que sinto que me ilumina a capacidade de ler o real sempre que mergulho num dos seus romances. Este volume despertou-me a curiosidade, já que este território das crónicas, dos relatos breves e concentrados de sentido(s) tem vindo a ocupar um lugar cada vez maior nas minhas escolhas.

Alma, de Federica Manzon, uma escritora italiana natural de Pordenone (uma cidade situada entre Veneza e Trieste) e que escolheu outra cidade para o centro deste romance – Trieste, capital da região de Friuli-Venezia Giulia. Fui a Trieste em 2014 e descobri um território italiano onde coabitam várias línguas e dialetos, várias religiões e uma diversidade de camadas arquitetónicas, desde a antiguidade romana, passando pelo império bizantino, pela herança austro-húngara e ainda com vestígios barrocos. E é uma cidade de mar, de barcos, com o Adriático sempre no horizonte, o que a torna única. A história de Alma, a protagonista, transporta o leitor para Trieste e para a história recente da cidade e das suas fronteiras volúveis.

Vita Immaginaria, de Natalia Ginzburg. Gosto sempre de voltar a esta autora e, se possível, na língua original, o italiano. Pretendo fazê-lo com mais este livro, desta vez de crónicas sobre os mais variados temas e sob o seu olhar e sensibilidade únicas.

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).


Vou basear-me nas minhas mais recentes leituras e que tanto me acrescentaram de modo a ultrapassar a dificuldade de restringir a 3 títulos as sugestões.

A Matéria das Estrelas, de Isabel Rio Novo, que traz uma história de um jovem que sonha com o mar e a vida a bordo, mas cuja existência é marcada por uma tragédia. Dizer apenas isto é redutor e algo vago, e atrevo-me a dizer que o que mais me agradou neste livro foi o seu início (belíssimo de força poética) e a ondulante linha do tempo (como o mar que serve de pano de fundo), que vai até aos primeiros exploradores e marinheiros do globo terrestre, à época dos Descobrimentos marítimos e de uma nova forma de se ser humano até aos anos que precedem a revolução de abril de 1974. Uma escrita de um fulgor que leva o leitor a mergulhar numa bela homenagem ao poder da literatura e à insaciável curiosidade humana.

O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Tratou-se de uma releitura e, se a trago para aqui, é porque constitui a prova do que Italo Calvino disse sobre os clássicos – «Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer». Este, de Oscar Wilde, é um romance extraordinário, que leva à contemplação e à reflexão (uma alternância a que o leitor é levado sem dar conta) e ao questionamento sobre os limites do Belo e do Bem e da sua nem sempre correlação.

Serendipidade, de José Paulo Santos um livro de crónicas que nos convida a viagens interiores. O autor vai buscar inspiração para as suas reflexões, que surgem ao ritmo dos acasos, a um livro, a um filme, a uma música, a um olhar de um gato, a um mapa de uma viagem que fez por diferentes continentes, a uma receita de culinária, a uma notícia que marca a atualidade… Vale muito a pena mergulhar nestas crónicas.

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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

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