[leituras de verão] As sugestões de Susana Moreira Marques

Que livros pretende ler este verão?

Seis Noites na Acrópole, Yórgos Seféris

Só pelo título se percebe que vou até à Grécia. Gosto de levar comigo literatura do lugar para onde viajo, como uma espécie de viagem dentro da viagem, que me dá a ilusão de que em poucos dias talvez possa compreender um bocadinho mais do que uma turista. Mesmo a tempo da minha viagem, acaba de sair este que é o único romance do poeta Yórgos Seféris, traduzido por uma das poucas pessoas que traduz do grego moderno para português, o José Luís Costa, cujo nome deveria vir desde logo na capa, como sempre deviam vir nas capas os nomes dos tradutores.

On the Calculation of Volume — 1, Solveij Balle

O primeiro volume da série de livros de que tanto se fala. Gosto de, nas férias, ler um livro que não consiga pousar e espero que este seja um desses casos. Para além disso, explora o tempo na narrativa, passando-se num só dia, que é algo que neste momento me interessa pensar para um projecto em que estou a trabalhar. Talvez uma escritora esteja sempre a trabalhar quando lê, mesmo de férias.

Procura Nada, Eduardo Brito

e

Os Desarçonados, Pascal Quignard

Finalmente, no verão, acho que vou conseguir ler o último livro do Eduardo Brito, que tem estado em lista de espera, editado pela Cutelo, pequena editora de Guimarães, também a cidade do autor. E como não há ninguém mais apaixonado pelos livros do que os seus editores, não pude deixar de comprar também o de Pascal Quignard quando o Pedro Magalhães, editor da Cutelo, me disse que era o livro da sua vida.

Taiwan Travelogue, Yáng Shuang-zi

Acaba de ganhar o International Booker e não só por isso, mas também, vai ser um dos meus livros do verão. Este prémio foi o segundo International Booker, em dois anos seguidos (proeza nunca antes conseguida), da editora independente And Other Stories, que mostra como têm sido as independentes a apostar em livros “literários” e traduzidos de outras línguas, algumas minoritárias. Por sorte, a And Other Stories também vai arriscar publicar o meu Terceiro Andar Sem Elevador em 2027.

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).

Laços de Família, Clarice Lispector

Talvez não seja o mais representativo da autora, mas é o meu preferido da Clarice Lispector. É um livro de contos e o conto Amor é um dos meus contos preferidos de sempre. Regresso a ele muitas vezes, para reencontrar a profundidade que Lispector revela no quotidiano, ou para descobrir algo de novo na releitura sobre o texto e sobre mim própria. E a nova edição, publicada pela Companhia das Letras, que está a editar a obra completa da Lispector, é um daqueles objectos que queremos mesmo ter em casa.

Assis Bueno 37, Paula Delecave

Um livro que me parece perfeito na sua imperfeição de mistura de linguagens, entre desenho, colagem, fotografia, texto, e na imperfeição que sempre implica a narrativa autobiográfica, porque as nossas histórias e as nossas vidas nunca estão completas. Acaba de ser lançado e foi editado como parte do projecto Oleandras, que edita novelas gráficas de narrativa pessoal, escritas e ilustradas por mulheres.

To Tell a Story, John Berger, Susan Sontag

Li, sublinhei, e tive vontade de recomeçar do início. Para qualquer pessoa que se interesse pela natureza do storytelling (aqui usada muito antes do termo ser cooptado pelo marketing e estar em todo o lado) e pelo instinto de contar histórias. Sou admiradora dos dois, mas a delicadeza  — e, simultaneamente, a clareza — do pensamento de John Berger é, para mim, uma grande inspiração. Deixo só uma citação, para aguçar o apetite: “For me a story is always a rescuing operation. Which is another way to say a shelter”, diz o John Berger. Li-o em inglês, mas já há uma tradução, feita pela Alda Rodrigues.

*

Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: Robert Wilson.

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