[leituras de verão] As sugestões de Paulo Alhinho

A grato convite do Nelson, sou instado a responder a duas simples perguntas, sem estar obrigado a revelar porquês, sobre leituras.

3 que gostei, e 3 que reservei para férias.

Nos primeiros:

Javier Cercas, podiam ser quase todos, desde Os Soldados de Salamina, Anatomia de um Instante, O Impostor e o recém-chegado O Louco de Deus no fim do mundo. Mas escolho O Monarca das Sombras, que revela a história possível do seu tio avô Manuel Mena, alferes dos Atiradores de Ifni, morto pelas tropas republicanas na batalha de Ebro em 1938 com 19 anos, na tentativa de responder às questões se pode a Espanha reconciliar-se com a sua história, e se pode uma família ultrapassar o silêncio e a vergonha de ter entre os seus um herói falangista da guerra civil.

Mário Lúcio Sousa, para além de O Diabo foi meu Padeiro, não deixando apagar a memória inquietante do Campo de Tarrafal , e O Livro que me escreveu, hino ao labor da construção literária e ao prazer da leitura, escolho A Última Lua de Homem Grande. Reconstituindo, na voz do próprio Amílcar Cabral, a inevitabilidade da sua morte, e a tentativa de explicação das motivações, MLS oferece-nos uma visão distópica do que poderia ter sido a consolidação da democracia em Cabo Verde (e na Guiné Bissau), se as balas não tivessem chegado ao seu destino.

Wendy Mitchel, porque me fascinam as memórias e biografias, a história de uma funcionária do Home Nacional Service, “SNS” britânico, a quem, em 2014 e aos 58 anos, foi diagnosticada demência. À medida que a doença evolui, e perante a impossibilidade clínica de cura, e mesmo do retardarmento dos sintomas, num direto, mas vibrante, registo, Wendy não se resigna, antecipando as soluções que minimizarão as emergentes limitações, e demonstrando que é possível manter autonomia e viver sozinha durante muito tempo. Sensibilizando o público em geral, mas também a comunidade científica, verte a sua experiência em iniciativas públicas e para três livros que acompanham o período de 2014 a 2023:

Somebody I used to know (2018), publicado em versão brasileira com o título Alguém que eu costumava conhecer;
What I wish people knew about dementia: from someone who knows (2022), publicado em Portugal pela Presença com o título O que eu quero que todos saibam sobre Demência;
One last thing: how to live with the end in mind (2023), ainda inédito em Portugal e no Brasil.

Primeiro, li o segundo em PT-PT. Depois avancei para o primeiro em PT-BR, fascinei-me com o testemunho vívido (talvez o mais marcante do tríptico biográfico). No dia em que o terminei, 23/02/2024, googlando para conhecer algo mais da Autora, deparei-me com a notícia da sua morte, horas antes…

Li finalmente o terceiro na língua materna, associando-o à abordagem logoterapeutica de Viktor Frankl, já que Wendy, nos 10 anos após o diagnóstico, alcançou outro sentido para a vida. A eles hei-de voltar, por ordem cronológica e língua original, quando necessário.

E agora, o mais difícil, 3 que reservei para férias…

Antecipo desde já que, não obstante o desejado poder de síntese do desafio, comigo não funciona dessa forma…

Nunca são três, variam entre 8 e 12, não são antecipadamente escolhidos, antes na véspera ou no dia de saída, nunca são em formato digital, que para isso reservo o resto do ano entre leituras profissionais e pessoais, nunca são calhamaços, reservados para o Kobo do ano rotineiro, e, pelo menos, meia dúzia regressará à estante com o uso do “dever” realizado.

Assim, o que se segue é o conteúdo da saca da Bertrand que os aconchega, numa simulada antecipação do que chegará mais tarde, com a certeza de que, alguns destes poderão já não fazer parte do 11 inicial que será então escolhido.

Quando o tempo parou, de Ariana Neumann
Tarrafal 1975, o campo do silêncio, de Sandra Inês Cruz
Cobiça, esplendor e miséria, de Laurentino Gomes
No terramoto de 1975, de Tomás A. Moreira
Notas para John, de Joan Didion
Minha querida mamã, de João Pedro George
O último instante, de Salman Rushdie
Toda a beleza do mundo, de Patrick Bringley
La Babilonia 1580, de Susana Martín Gijón
Livro de Poemas, de António Lobo Antunes
Dentada em orelha de cão, de Miguel Carvalho

Obrigado e boas leituras!

*

Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: Susana Moreira Marques.

Deixe um comentário