
Que livros pretende ler este verão?
O verão é propício para ler calhamaços numa praia algarvia ou à sombra debaixo de um alpendre no Alentejo. Por isso, na minha lista TBR (to be read, para ler) estão uma biografia, um romance e um ensaio, gosto de alternar estilos e conteúdos narrativos:
Pessoa, uma biografia (2021), de Richard Zenith. Porque Fernando Pessoa é a casa onde regresso sempre e porque Zenith é apenas um dos especialistas mundiais atuais do autor de Mensagem. Acho que nunca saberei demais sobre Pessoa, estou sempre a atualizar-me. Tanto que até no carro vou escutando repetidamente os podcasts das emissões Les Nuits de France Culture, da Radio France, que têm sobre o poeta português, incluindo as emissões dos anos 1980 e 1990 com os saudosos José Blanco e Teresa Rita Lopes.
A Sombra das Árvores no Inverno (2025), de Carla Pais, Prémio LeYa 2025. Porque é o segundo Prémio LeYa atribuído a uma mulher. Porque, como Gabriela Ruivo Trindade em 2013, Carla Pais faz parte dos autores da emigração (mora em França) e é necessário dar mais destaque aos autores das Comunidades. E porque li dois dos seus anteriores romances (Mea Culpa e Um Cão Deitado à Fossa), que me cativaram com as suas personagens vulneráveis, dinâmicas familiares complexas e os retratos de um país real que ainda hoje existe, longe do barulho mediático. Uma autora da emigração que conta através da sua perspetiva o Portugal profundo, esquecido, a vida dura nas regiões rurais isoladas, esvaziadas social e afetivamente. Um pouco como Miguel Torga o fez no século passado.
A Angústia da Influência (1973), de Harold Bloom. O norte-americano Bloom é uma referência da crítica literária mundial. No entanto, estou sempre a adiar este livro. Talvez porque sou um escritor angustiado (como todos os escritores, não?). Mas ao mesmo tempo é um prazer aprender com Bloom. Adorei o seu O Canône Ocidental e a sua crítica ao Caim, de José Saramago, há uns anos na New York Review of Books. Ler este livro vai ser terapêutico também. Parafraseando George Bernard Shaw, “é possível escrever os cinco atos de Romeu e Julieta melhor do que Shakespeare, só que ninguém se atreve a fazê-lo, nem eu!”. Ou contrariando Bernard de Chartres, será possível escrever ignorando que estamos sentados nos ombros dos gigantes que nos precederam?
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Três livros que me marcaram e recomendo. O primeiro é, sem dúvida, Se Numa Noite de Inverno um Viajante (1979) do romancista italiano Italo Calvino. Um livro cheio de humor, que me fez rir desde as primeiras páginas, quando o autor se dirige ao leitor dando-lhe conselhos de como deve ler o romance, deitado, sentado, de pé, de pernas para o ar no sofá, a fazer o pino, em cuecas… “Mas não fiques para aí com o livro numa mão e as calças na outra”, brinca o autor logo na introdução. O livro é um livro dentro do livro. Calvino utiliza a segunda pessoa do singular para colocar o leitor como protagonista da história (ou das histórias, porque a narrativa está constantemente a ser quebrada), e atravessa aquilo que no cinema se convencionou chamar a “quarta parede”. Dei assim por mim a ter a sensação que era eu que estava a escrever a história. Numa história sou um passageiro à espera de um comboio que nunca vem, noutra sou o amante de uma mãe e de uma filha japonesas. Às tantas, Calvino interrompe “a minha ação” e interpela-me, mais ou menos assim: “Ouve lá, não é porque és o herói deste livro que vais dormir com todas as personagens femininas, pois não?” O que eu me ri. Era adolescente quando li este romance e foi uma autêntica revolução na minha cabeça de leitor que já ambicionava na altura tornar-me escritor.
Outro romance que também quebra a narrativa é Atlas das Nuvens (2004), do autor britânico David Mitchell. Mistura amor assolapado, temas históricos e ficção científica, todos temas que me são prediletos. O romance conta seis histórias que se interligam entre o século XIX e o século XXIV. E, não parecendo, é uma história de amor, que me fez logo pensar na Lei do Amor (1995), de Laura Esquível. Gostei de me perder no meio das correspondências à antiga, nos diários novecentistas rasgados a meio, e das narrações futuristas, histórias de eras diferentes, que parecem desconectadas entre si, mas que, afinal, estão ligadas por algo intemporal. A estrutura do romance é um desafio para quem lê, porque está construído em espelho, como uma “partitura de um sexteto musical”, segundo o próprio Mitchell, ou seja, a conclusão da primeira história do romance é a que fecha o livro, e só ficamos a saber como termina a segunda história quando esta aparece como penúltima a ser contada. E assim sucessivamente. As irmãs Wachowski adaptaram o romance ao cinema em 2012 e conseguiram tornar o enredo facilmente compreensível para os espetadores, o que, sinceramente, pensei não ser possível quando soube que o livro ia tornar-se filme.
O terceiro livro que recomendo é um romance histórico, A Sala das Perguntas (1998), de Fernando Campos, um autor que considero subvalorizado entre nós, que sempre esteve arredado da vida mediática, mas que merece ser lido e relido. Neste romance, o autor conta a vida do humanista e diplomata português Damião de Góis, o seu périplo pela Europa Renascentista, o seu encontro com Erasmo de Roterdão, a sua fuga à Inquisição. Fala-se de filosofia, humanismo, arte, literatura. O livro transpira cultura, daquela que nos areja a cabeça e faz ir à cata de livros e de autores que queremos, também nós, descobrir. Este romance é mais do que uma tentativa de biografia de Damião de Góis, é uma espécie de ‘road movie’ literário e histórico do início da era moderna pela Europa. As partes sobre a Inquisição enviaram-me para os horrores já descritos em O Último Cabalista de Lisboa (1996), de Richard Zimler, ou em O Judeu (1966), de Bernardo Santareno. Um dia, Portugal vai mesmo ter de deitar-se no divã psiquiátrico e exorcizar todos os crimes cometidos durane os trezentos anos do Santo Ofício. À parte isso tudo, deixar que o Fernando Campos nos conte histórias com sua maneira erudita e envolvente é sempre um verdadeiro deleite.
*
Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Carla Pais.