[leituras de verão] As sugestões de Ana Pinto Mendes

Que livros pretende ler este verão?

Sempre que começo a pensar as leituras de Verão, faço questão de incluir um dos «calhamaços» que passo a vida a querer ler, mas que não tenho coragem de enfiar na espuma dos dias e do trabalho. Este ano, tudo indica que vai ser de um autor de que gosto muito: O Jogo do Mundo, de Julio Cortázar. Estão também na calha Persépolis, de Marjane Satrapi (cheia de vergonha de ainda não o ter lido, sabendo que olha para mim todos os dias há anos, mas agora não podia ser mais premente) e Stiller, do suíço Max Frisch. (A título suplementar e em jeito de batota, sendo eu fraca leitora de poesia, quero muito colmatar essa falha: tenho para já andado a passear com Abandono Vigiado do Alexandre O’Neill.)

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).

Apeirogon, de Colum McCann, porque, se é que pode haver «receita» para que dois povos de costas voltadas possam alguma vez olhar-se e encontrar-se no mesmo plano, terá de passar pelo reconhecimento daquilo que os une: neste caso, e baseado numa história real, personificado no sofrimento (universal) de dois pais, um palestiniano, outro israelita, que perderam as filhas às mãos da violência do «outro lado» e que se tornam melhores amigos. A prosa, numa estrutura narrativa em fragmentos e em contagem decrescente, é rítmica e delicada. A solução até parece óbvia. Dizia o The Guardian: «Será absurdo sugerir que um romance poderá ser bem-sucedido onde gerações e gerações de políticos fracassaram?»

O Mundo, de Juan José Millás (ou qualquer outro livro do autor, na verdade), pela sua louca e destravada imaginação, umas memórias semificcionadas do percurso de crescimento do autor em que se perde a noção da linha que separa a ficção da realidade. O sarcasmo e a ironia a falar de coisas sérias que, apesar do elemento às vezes trágico, nos fazem rir. É para mim sempre uma lufada de ar fresco.

Puxando um bocadinho a brasa à minha sardinha (mas pouco), recomendaria um dos livros graficamente mais bonitos em que tive o privilégio de colaborar (neste caso, na revisão) e que foi lançado muito recentemente pela Antígona: O Passeio, de Robert Walser. É um passeio meditativo ou uma meditação em ritmo de passeio, uma deambulação pelo prazer da deambulação, um elogio da atenção ao pormenor, da paisagem exterior como reflexo da paisagem interior, do escrever e caminhar e do caminhar para escrever. Passeamos pela tradução do Bruno C. Duarte e pelas belíssimas ilustrações do Pierre Pratt.

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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: José Luís Correia.

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