[leituras de verão] As sugestões de Isabel Teresa Palha

Que livros pretende ler este verão?

Neste verão, nas longas e luminosas tardes que convidam à leitura, tenho alguns livros em espera. Entre eles, destaco três cuja temática central — o envelhecimento — me desperta especial curiosidade:

Vida, Velhice e Morte de uma Mulher, de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês. Li anteriormente O Retorno a Reims, obra de que gostei muito pela honestidade e profundidade da reflexão. Agora aguarda-me este livro, onde o autor aborda a velhice através da relação com a mãe e da experiência do seu envelhecimento.

E se Eu Morrer Amanhã?, de Filipa Fonseca Silva. Será o meu primeiro encontro com a escrita desta autora. Através de Helena, uma viúva de 79 anos, o romance aborda o direito à sexualidade na terceira idade, os preconceitos que persistem na sociedade e a forma como os filhos lidam com a autonomia afetiva dos pais.

Escovar a Gata e Outras Histórias, de Jane Campbell. Publicado quando a autora tinha 75 anos, este conjunto de contos oferece um olhar simultaneamente lúcido, irreverente e bem-humorado sobre a vida das mulheres mais velhas. Quando peguei no livro pela primeira vez, o título levou-me a imaginar histórias sobre gatos e idosos. Como tenho o hábito de espreitar as páginas finais antes de decidir uma compra, percebi rapidamente que esta obra é muito mais do que isso: nela encontramos também a sabedoria que Jane Campbell foi acumulando ao longo da sua vida profissional enquanto terapeuta de grupos.

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).

Entre os livros que li nos últimos meses, há alguns que gostaria de destacar.

Corpo de Cristo, de Bea Lema. Trata-se de uma novela gráfica extraordinária que utiliza diferentes pontos de bordado como linguagem narrativa. Só pela beleza visual das suas páginas já mereceria ser lida: o traço delicado, a integração dos bordados e a expressividade das imagens tornam-na uma obra singular. A história acompanha uma família emigrante que regressa à sua terra natal, algures na Galiza. É uma narrativa sobre desenraizamento e pertença, sobre a sensação de já não se ser verdadeiramente de um lugar, mas também de nunca se ter sido totalmente do outro. Explora ainda a relação profunda entre mãe e filha, as crenças populares, os curandeiros e as mezinhas como resposta ao sofrimento psicológico. A depressão da mãe e o medo constante da filha perante a possibilidade de a perder atravessam toda a narrativa. É uma obra bela, por vezes dolorosa, mas profundamente original na forma como aborda a emigração, a saúde mental e os laços familiares.

Filha da Louca, de Maria Francisca Gama. Um romance breve na extensão, mas imenso na intensidade emocional. A autora mergulha no quotidiano de uma família onde a doença mental está presente, mostrando como o amor, a proteção e a dependência emocional se entrelaçam de forma complexa. A incerteza torna-se uma presença constante, moldando relações, comportamentos e escolhas. Com grande sensibilidade, Maria Francisca Gama transporta-nos para o interior desta família e faz-nos sentir as suas fragilidades e afetos.

Consentimento, de Vanessa Springora. Em Paris, nos anos 80, uma adolescente vive com a mãe e circula nos meios intelectuais da época. É nesse contexto que conhece um escritor consagrado que a seduz e a conduz a uma iniciação
precoce à sexualidade. O livro questiona profundamente a ideia de consentimento e a complacência de uma sociedade que, durante demasiado tempo, normalizou relações profundamente desequilibradas entre adultos e menores. Mais do que um testemunho pessoal, esta obra constitui uma denúncia corajosa que desencadeou um amplo debate público em França. Com uma escrita contida, mas de enorme força emocional, Vanessa Springora confronta o leitor com questões incómodas sobre poder, responsabilidade e silêncio. Foi uma leitura que me perturbou e que dificilmente esquecerei.

Poderia também recomendar Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida – maravilhosa abordagem às questões do racismo e dos preconceitos – podemos ter uma pele branca, mas se tivermos uma carapinha a coroar-nos a cabeça, seremos igualmente respeitados?! Uma escrita inovadora, de alguém que já escreveu muito e que nos transporta como se fosse uma narrativa oral. O Colapso, de Édouard Louis, Elena Sabe, de Claudia Pineiro e Também há rios no céu, de Elif Shafak.

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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: Nuno Duarte.

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