[leituras de verão] As sugestões de Guilherme Pires

Que livros pretende ler este verão?

Irei ler um livro que traduzirei a partir de Setembro, mas que por respeito pela editora não posso divulgar. Além disso, tentarei ler um livro de não-ficção que nos tenta vender a ideia de que a inteligência artificial irá dominar e destruir o ser humano, escrita por dois dos seus fundadores, pessoas financeiramente interessadas nesta narrativa distópica: If Anyone Builds It, Everyone Dies, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares. Interessa-me perceber o modo como se manipula o pensamento colectivo para que aceite acriticamente esta tecnologia, com base no medo (e na excitação). Lerei também dois textos de autores portugueses que poderei vir a publicar na Caixa Alta. Gostava de ter tempo para reler e editar escritos meus, antigos, coisas já quase de pó, mais das aranhas do que minhas, mas penso que não enfiarei a mão nessa barraca de madeira decrépita.

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).

Recomendo estes três títulos como uma espécie de desafio de alfarrábio:

a. Montedemo, de Hélia Correia, uma novela maravilhosa, cheia de sangue e nervo exposto, osso profundo, mitologia rural portuguesa, em que a mão do patriarcado sai rasgada, decepada, um livro magnífico, como muito do que a Hélia escreve, e que está esgotado.

b. O Mel, de Tonino Guerra. Um dos mais belos e melancólicos livros do senhor Guerra: assistimos ao regresso de um homem à sua aldeia, onde vive o irmão e mais duas ou três personagens fantasmagóricas, mas acima de tudo onde vive a memória desse homem e livros que falam enquanto secam ao vento. A edição portuguesa há muito que está esgotada.

c. Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires, na edição da Arcádia, com as ilustrações e colagens de João Abel Manta. Porque são dois dos grandes autores da literatura e da arte portuguesa, e porque ambos já desapareceram, agora que vivemos num tempo minado por nova figuras que se erguem em bicos de pés para pisar o que julgam ser os estrados e os pedestais destes homens, ignorando que eles nunca saíram da terra batida, por opção própria; ou seja, para que quem leia esses novos e tão dourados escritores possa observar uma verdadeira obra literária e perceber o logro em que cai ao comprar a banha de cobra; e porque hoje há tantos que beijam os pés dos novos Salazares: faz-nos falta recordar que essa gente que tanto grita e gesticula não passa de lagartos de fato e gravata e almas medievais. A edição não está esgotada, mas não se compra na Wook nem na Feira do Livro de Lisboa. Vai uma corrida a uma boa livraria?

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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: Isabel Teresa Palha.

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