
Que livros pretende ler este verão?
Uma Questão de Beleza, de Zadie Smith. É uma autora que há muito quero ler e que ainda não tinha tido oportunidade de descobrir. Este romance interessa-me particularmente por explorar a ideia de beleza nas suas diferentes dimensões – estética, moral e humana -, cruzando literatura, filosofia e uma reflexão sobre a sociedade contemporânea.
Aulas de Literatura – Berkeley, 1980, de Julio Cortázar. Uma espécie de curso de literatura na voz de um dos seus grandes mestres. Trata-se do percurso de um escritor que reflecte sobre si próprio e sobre o seu ofício a partir das aulas que deu na Universidade da Califórnia. Interessa-me sobretudo pelo desassombro e pelo registo quase confessional com que Cortázar dialoga com os seus alunos sobre o que significa escrever.
Hannah Arendt – A Biografia, de Thomas Meyer. A biografia intelectual de uma das pensadoras mais relevantes do século XX. O livro mostra como a experiência do exílio, do totalitarismo e da condição de refugiada moldou os conceitos centrais do seu pensamento, revelando como as suas reflexões sobre liberdade, poder, responsabilidade, verdade e democracia continuam fundamentais para compreender desafios contemporâneos, como a desinformação, a polarização política, o crescimento de movimentos autoritários e a fragilidade das instituições democráticas.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Mi Viaje al Otro Lado de la Realidad, de Lev Tolstói. Li a edição espanhola, uma vez que ainda não está traduzido para português. Um livro que me marcou profundamente, de um dos autores da minha vida. Situado entre o ensaio e a autobiografia, revela um Tolstói intelectual, inconformado e profundamente revolucionário. Neste breve texto, que se lê de um fôlego, assistimos à transformação de um escritor que abandona uma visão do mundo decorrente de uma condição social privilegiada, e se confronta directamente com a miséria extrema dos bairros pobres de Moscovo. Essa experiência altera radicalmente a sua consciência moral e política. É um livro surpreendentemente actual, que nos obriga a reflectir sobre questões que permanecem centrais: como pode uma sociedade aceitar desigualdades extremas? Como combater a pobreza? Qual é a responsabilidade moral de quem vive com conforto perante o sofrimento dos outros?
História da Arte sem Homens, de Katy Hessel. Um livro fascinante, escrito por uma autora com uma voz absolutamente original e cativante no domínio da História da Arte. Percorrendo cinco séculos de história, Hessel recoloca as mulheres artistas no centro da narrativa. Nestas páginas encontramos histórias extraordinárias sobre a forma como, apesar dos mais severos condicionalismos sociais, tantas mulheres artistas conseguiram afirmar o seu talento e conquistar um lugar na história dos grandes movimentos artísticos. Um livro rigoroso, apaixonante e um verdadeiro deleite para os olhos.
Na Tua Mão, de Hélder Teixeira Aguiar. O mais recente vencedor do Prémio Literário Agustina Bessa-Luís. Um livro notável sobre o drama dos migrantes, em particular daqueles que atravessam a selva de Darién – os que sobrevivem e os que lá ficam. Intenso, brutal, atravessado pela solidariedade dos laços do desespero, e profundamente comovente. Um romance extraordinário pela investigação que lhe subjaz, mas sobretudo pelo talento literário que anuncia.
Por fim, um convite: reler Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro, agora que terá uma adaptação ao cinema. Uma forma também de recordar o seu estilo a um tempo delicado e acutilante que poderemos reencontrar em 2027 com o seu novo romance já anunciado.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.