
Que livros pretende ler este verão?
Como ler para mim é como viajar (no sentido de conhecer outros mundos, vidas, num exercício e espaço de liberdade), aprecio ler e misturar vários géneros literários, histórias passadas em diferentes partes do mundo e de autores muito diferentes. Nesse sentido, estou a pensar ler no Verão:
– Mil Tons de Azul, de Cheon Seon-Ran, ideal segundo consta para os admiradores de Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro e já o estou a ler, neste momento;
– O último espião do Reich, de Francisco Ramalheira, porque a temática da Alemanha me é particularmente especial, o protagonista é português (carteirista de Alfama), misturando Segunda Guerra Mundial com a lenda da Atlântida e a bomba atómica. Estou muito curiosa!;
– 22 voltas, de Caroline Wahl, uma autora alemã actual. Ao que parece a publicação deste livro foi um grande sucesso na Alemanha;
– Knulp, de Hermann Hesse, passado na Alemanha rural do final do século XIX;
– As Meninas do Laranjal, de Gabriela Cabezón Cámara, romanceando a vida de Catalina de Erauso (1592–1650), a “Freira Alferes” que, assumindo a identidade de um homem, fugiu de Espanha e foi combater na conquista das Américas;
– Reading Lolita in Tehran, de Azar Nafisi, relatando a sua experiência de ensinar e debater com um grupo clandestino de mulheres literatura ocidental, após a revolução islâmica dos anos 70;
– Sympathy Tower Tokyo, de Rie Qdan, no qual a autora usou inteligência artificial (ChatGPT) em 5% do livro e apresenta uma sociedade distópica que considera os criminosos como vitimas da sociedade merecendo compaixão e não castigo;
– Iniciar a tetraologia da memória (com Das Muster) de Dieter Forte, em alemão, cruzando a história das suas duas famílias (uma de origem italiana e outra polaca) na cidade de Düsseldorf com a história alemã: ascensão e queda de Adolf Hitler e pós Guerra.
– No Tempo das Cerejas, de Célia Loureiro e A Casa das Malvas, de Valentina Silva Ferreira, romances um pouco diferentes de todos os outros referidos, mas são de duas autoras portuguesas!
Talvez ainda consiga ler mais qualquer coisa, mas veremos. O objectivo aqui é o prazer da leitura, não atingir determinada quantidade. De qualquer das formas, e para quem tiver interesse, tenciono ir escrevendo sobre o que for achando de cada um deles no meu Blog Viagens Literárias.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Os livros que irei recomendar ficaram todos com um lugar especial em mim. São aqueles que, por uma razão ou outra, dificilmente me esquecerei deles e do que ali encontrei. Entre eles, não há um mais significativo do que o outro. São todos especiais e todos diferentes, diria.
Nem todas as árvores morrem de pé, de Luísa Sobral, é um deles. Este primeiro romance de Luísa Sobral foi uma agradável surpresa: a estrutura da narrativa é original e a escrita poética/ musical, sendo que a história tem como pano de fundo a divisão da Alemanha aquando do Muro de Berlim. Todo o livro demonstra uma sensibilidade incrível da parte da autora, visível nas suas palavras (e na forma como transmite emoções através destas) e também na forma como relaciona as histórias das personagens com o impacto da História da Alemanha nas suas vidas. Foi uma das minhas leituras preferidas do ano passado. E as gravuras do livro, de Camila Reis, são de uma delicadeza incrível.
O segundo livro que recomendo é Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro. Numa altura em que, quase todos os caminhos vão dar à inteligência artificial (suas vantagens e seus perigos), o autor, Nobel da Literatura de 2017, demonstra como as máquinas podem ser mais humanas do que os próprios humanos. É um livro muito bonito e actual, deixando-nos a pensar… muito depois de o terminarmos de ler.
O terceiro livro é As Ilhas dos Pinheiros, de Marion Poschmann. Estando entre os finalistas do “the Man International Booker Prize” de 2019, e tendo sido igualmente candidato ao prémio do livro alemão de 2017, este livro acaba por ser uma viagem cultural ao Japão e um desafiador exercício de reflexão. Gilbert (personagem principal) acorda um dia acreditando que a mulher o está a trair e, na sequência disso, decide viajar para o Japão. Logo no avião cruza-se com um livro de Bashō, poeta japonês e eremita viajante, que lhe acabará por servir de guia na sua viagem, juntamente com o jovem Yosa, que conhecerá já numa estação de comboios com um manual completo de suicídio na mão. No final, além de ir explorando a cultura japonesa, o leitor fica a pensar: será que todas estas peripécias aconteceram de facto na história? É um livro muito original e curioso.
Por fim, e mesmo excedendo os três livros, não resisto a acrescentar mais dois, igualmente memoráveis e com uma belíssima escrita: Pés de Barro, de Nuno Duarte e O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Com Nuno Duarte, vencedor do Prémio Leya 2024, apreciei conhecer uma série de factos curiosos e habitualmente pouco conhecidos sobre a história de Lisboa nos anos sessenta, ao mesmo tempo que mergulhei na construção da Ponte hoje chamada de 25 de Abril, outrora Ponte Salazar, na chegada a Lisboa de portugueses oriundos de vários outros pontos do país em busca de uma vida melhor, no modus operandi da PIDE e na crescente insatisfação dos portugueses com as colónias em África. As personagens Victor Tirapicos e Dália “Chocolate” também me conquistaram!
O Ano da Morte de Ricardo Reis é, para mim, dos livros que li do Nobel da Literatura português, o melhor. Não é uma leitura simples nem leve, mas é muito rica. A mistura entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis feita por Saramago seguindo o seu próprio estilo é grandiosa.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Fernanda Cunha.