
Que livros pretende ler este verão?
Na irrequieta torre de livros que cresce sobre uma das minhas mesinhas de cabeceira encontra-se, pela sua tremenda actualidade, A Brincadeira, o romance de estreia de Milan Kundera, publicado em 1967; por todas as razões, O Infinito num Junco, de Irene Vallejo; e o animalário, um bestiário lusitano, de Pedro Castro Henriques, acabadinho de sair do prelo.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
A minha primeira recomendação é Escama Rímel Carapaça, de Manuel Halpern, publicado pela editora A Morte do Artista. Manuel Halpern encanta-nos com uma escrita difícil de catalogar, qualquer coisa entre poesia e prosa, ilustrada a escama, rímel e carapaça por Alexandra Ramires. Conta-nos a história do amor líquido de um homem-peixe por uma mulher maquilhada. A beleza, a musicalidade e a inteligência do texto e das ilustrações colocam-nos nos pés do homem apaixonado e também no corpo sem cor da mulher, desapaixonada de si própria. Sentimos o amor líquido dele escorrer-nos pela pele, da mesma maneira que sentimos, com intensidade crescente, as duras investidas do sólido e implacável desamor dela. Na badana da capa, pode ler-se: «Quem olha para o amor como um jogo de xadrez acaba sempre por comer a rainha». Retirada do interior do livro, esta frase, que daria um excelente tema para tertúlias, palestras ou conferências, resume na perfeição a história contada ao longo de 78 belíssimos cantos épicos, salgados por definição, onde há espaço tanto para os gestos mais comuns do quotidiano como para as mais profundas amarguras e desesperos. O livro permanece connosco muito para além da última página. Magnífico.
A minha segunda recomendação é Vale da Paixão, de Lídia Jorge. Publicado em 1998, o livro combina memória familiar com história colectiva, oferecendo uma reflexão profunda sobre identidade, pertença e ausência. Com uma escrita de grande intensidade poética, Lídia Jorge transforma gestos quotidianos, paisagens e recordações em matéria literária de rara beleza. No centro da narrativa encontra-se uma filha que tenta reconstruir a figura do pai, Walter Dias, homem errante e esquivo, cuja presença se faz sentir sobretudo através da ausência. A partir dessa procura, desenha-se um retrato familiar complexo, habitado por silêncios, afetos, ressentimentos e segredos, onde cada personagem parece carregar uma versão diferente da verdade. Vale da Paixão traz-nos à memória um país marcado pela emigração, pela autoridade patriarcal e pela dificuldade em nomear os seus afetos. Magnífico.
A minha terceira recomendação é O osso da borboleta, de Rui Cardoso Martins (2014), um romance que tem na beleza o seu eixo central. O autor parte da beleza como atributo feminino para chegar à beleza como condição humana, percorrendo um desconcertante caminho literário que não nos deixa indiferentes. Num mundo marcado pela fealdade, a beleza da personagem principal, Purificação, tal como a da ex-companheira de Paulo — uma figura que surge apenas de passagem —, encontra-se inevitavelmente associada a um jogo em que o azar parece prevalecer sobre a sorte. Esta dinâmica reflete-se na relação predador-presa onde a moralidade pouco ou nada intervém, quase sempre convocando uma fornicação que morde porque tem dentes de lampreia. E quem não morde é mordido. São as leis da natureza. A beleza desaparece, seja pelo inevitável envelhecimento seja por uma estranha fuga, e a vida inclina-se então para o passado. Para os náufragos de sofá e de sótão, «nada é tão imprevisível como o passado». Um passado que regressa ao presente e lhe troca os tempos. Num arrojamento ficcional despudorado, em que a pulsão passional é interrompida — ou talvez reforçada — por reflexões sobre as coisas do mundo, sempre filtradas por um peculiar ecossistema de sótão, Rui Cardoso Martins empurra-nos, sem nos conceder fôlego, para uma outra dimensão da beleza: a beleza pública. Esta revela-se apenas no final do romance, nas últimas linhas do último capítulo. Um gesto simples, talvez o mais simples dos gestos humanos, encerra a narrativa. O cumprimento da essência humana através desse gesto desarma-nos e devolve-nos ao mundo. Sairemos vivos desta fábula política porque, também aqui, a beleza foi servida fria. Magnífico.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Sara Rodi.