[leituras de verão] As sugestões de Helena Muñoz de Oliveira

Que livros pretende ler este verão?

Neste verão vou reler Almeida Faria e Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira. E porquê? Porque, para o primeiro, além do ensaio O véu de Maia – Relendo Almeida Faria, de Cristina Robalo Cordeiro e das palavras de Isabel Lucas e Mariana Oliveira no Antes Agora que dão vida aos autores esquecidos nas prateleiras, e lembrando a minha mais recente leitura do Murmúrio do Mundo (beleza de título, beleza de texto), senti um desejo imenso de revisitar Almeida Faria, «um livro , um romance, também lhe chamam um poema em prosa…» (Isabel Lucas), após uma ausência de quase ou mais 40 anos.

E porque, para o segundo, foi com grande emoção que deambulei pelo espaço chamado Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Melo, onde fui tocada pela graça ao revisitar a sua magnífica obra, romances, poesia, ensaios e outros escritos através das imagens e da sua palavra aqui exemplarmente expostas e transmitidas. Reler e ler Conta-Corrente vai ser o prolongamento deste instante de essencial.

E claro que será também leitura de verão todo aquele título irresistível, aquela imagem que se cola à retina, aquela página aberta ao acaso, naquela livraria preferida ou ocasional onde, fatal como o destino de um leitor, todos os caminhos lá vão dar.

Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).

Só três…. é difícil a escolha mas há aquelas leituras imprescindíveis, magistrais e logo obrigatórias tais como:

Olhar para trás, de Juan Gabriel Vásquez (Ed Alfaguara), porque é um romance extraordinário, interessante e absolutamente necessário. Assim: “Como foi (este livro) capaz de me transmitir tal variedade de emoções? Estou ainda a tentar percebê-lo, mas o que quero assinalar é que, se não tivesse caído nas minhas mãos, a sua ausência teria provocado na minha biografia de leitor uma falha de que nem sequer seria consciente”, Juan José MILLÁS, El País.

Os soldados de Salamina, de Javier Cercas (Ed Porto Editora). Porquê? Porque é um romance extraordinário, interessante e absolutamente necessário. Conta-nos a história de um soldado republicano que poupa a vida de um fundador e ideólogo da falange olhando-o nos olhos. De Rafael Sánchez Mazas, intelectual fascista escritor e poeta, de Miralles combatente republicano na guerra civil espanhola e mais tarde um combatente nos aliados que combateram o nazismo, e do pasodoble Suspiros de España. Uma visão da guerra civil espanhola de 1936 a 1939 e além fronteiras até 1945 através de uma investigação jornalística objectiva e apartidária mas com alma e profundamente humanista extraordinariamente narrada. “Vi o meu livro inteiro e verdadeiro, o meu relato real completo, e soube que só me faltava escrevê-lo, passá-lo a limpo, porque estava na minha cabeça do princípio («Foi no verão de 1944, faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas»)», pág 176. E assim, “-E o que é um herói? Não sei. John Le Carré diz que é preciso têmpera de herói para se ser uma pessoa decente. Sim, mas uma pessoa decente não é o mesmo que um herói – replicou Bolaño imediatamente. – Pessoas decentes há muitas: são as que sabem dizer não a tempo; heróis, pelo contrário, há muito poucos. Na realidade, eu julgo que no comportamento de um herói há quase sempre alguma cegueira, irracional, instintiva, que faz parte da sua natureza e da qual não consegue fugir. Além disso, pode ser-se uma pessoa decente durante toda uma vida, mas não se consegue ser sublime sem interrupção, e por isso, o herói só o é excepcionalmente, num momento ou, quando muito, numa temporada de loucura ou de inspiração.”, pág 125/126 (Porto Editora).

Revolução, de Hugo Gonçalves (Ed Companhia das Letras). Porquê? Porque é um romance extraordinário, interessante e absolutamente necessário. Porque antes era a noite e a escuridão e depois foi a revolução, a liberdade, a democracia e o uso desta, assim de repente. Revolução é um romance fluido, num tom jornalístico vibrante e objectivo que nos dá um retrato realista e perfeito de um país que fomos e que somos, através de uma família cujas personagens densas e bem construídas amam, odeiam, acreditam, endeusam, lutam, fogem, sempre apaixonadamente em nome de ideais e ideologias e ideias. Em nome de… 500 páginas de cronologia histórica respeitada e contada magistralmente fazendo-nos viver, lembrar e relembrar, por procuração literária, a nossa História e todos os sentimentos universais aqui vivenciados. E dizer que o autor nem sequer tinha ainda nascido em 1974 …. Aqui deixo uma grande vénia e respeito pelo imenso, rigoroso e digno trabalho de pesquisa e investigação. A ler sem sombra de dúvidas.

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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.

A seguir: Rafael Gallo.

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