
Que livros pretende ler este verão?
O QUE QUERO LER nas férias, perguntam-me. Ensaio resposta apontando um punhado de títulos que me ocorrem no imediato, tão-somente porque sei que, leitor errante que sou, muitos outros títulos podem (e irão) sempre assaltar-me ao caminho, trocando-me as voltas (ou as páginas) aos planos. Mas, cá vai:
de Tomas Pynchon, V. Um autor impregnado de mistério que até hoje não li e cujas primeiras edições por cá traduzidas, nos anos 90, falhei. V. é um dos seus romances agora disponível nas livrarias e quero bastante começar a lê-lo. E é tal a vontade de o fazer que é essa a motivação maior para avançar para um tijolo como este (512 pp.) – cada vez tenho menos paciência para assédio textual… Se chegar a bom porto, talvez avance para o também recém-editado Caso Fantasma.
El Ejército Ciego, de David Toscana. Assim mesmo, em castelhano, porque será nessa língua que pretendo lê-lo, tanto mais que ainda não está traduzido por cá. Trata-se de um dos mais imaginativos e prodigiosos escritores mexicanos da actualidade e em Espanha acaba de ganhar o Prémio Alfaguara com este romance. Uma história baseada num episódio histórico no século XI, quando o imperador bizantino Basílio II capturou quinze mil soldados búlgaros, ordenando, como castigo (e prevenção) que todos fossem cegados, deixando apenas um soldado vivo por cada cem, para que assim os estropiados pudessem regressar a casa. Se isto não é uma história! – digna de um Homero, que, dizem, também seria cego. No escuro se aprende a luz. Acaso queiram conhecer Toscana em português, experimentem encontrar (num qualquer alfarrabista bem ataviado) dois títulos preciosos já por cá editados há uns bons anos. Um, O Exército Iluminado (Parsifal, 2014), uma sátira em torno de uma tentativa de reconquista mexicana do território do Texas, outro, o excepcional Santa Maria do Circo, em 2010, numa tradução de Jorge Fallorca, sobre um grupo de artistas de circo que ao chegar a uma cidade-fantasma tentam aí reconstruir uma ideia de civilização. Os dois títulos de Toscana, faça-se justiça, devem-se ao empenho do editor Marcelo Teixeira, que em 2010 no-lo apresentou, precisamente com este último romance (bem negociado, contra ventos e marés), na magnífica e extinta colecção Ovelha Negra, chancela à data da editora Oficina da Escrita.
Fantasmas, de Siri Hustvedt. Acompanho a escrita de Siri desde que, em 2012, li Verão Sem Homens, numa altura em que à enorme autora que Siri é ainda fazia muita sombra o êxito do seu marido, Paul Auster. Parece que são memórias, espero que não se trate de uma romantização autobiográfica da relação do casal, porque já cansam enredos autobiográficos e memorialistas, fazendo crer que a vida de cada um de nós vale a morte de uma árvore e que tivemos todos infâncias terríveis. Sobre o terrível, felizmente, face ao mundo em que vivemos, sabemos apenas que, para sorte nossa, sabemos muito pouco.
Dalton Trevisan e os breves contos de Cemitério de Elefantes e O Rosto de Deus, de Ana Teresa Pereira. São ambos aquisições recentes da feira do livro. Dalton, porque há cerca de um mês li o genial Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e fiquei com vontade de regressar à festa criativa e imaginativa de Trevisan. Ana Teresa Pereira, porque é uma escritora cheia de mistério, deliberadamente ausente do circo editorial apesar de manter edição assídua na Relógio de Água. Agrada-me à partida, esse seguir pelas margens da festa. E mistério, digo bem, porque nesse clima decorrem as suas histórias, narrativas sempre acompanhadas de um travo cinematográfico, muito singular, contido e cheio de poética, da palavra e do lugar.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
LIVROS QUE ACONSELHO, também porque assim, do pé para a mão, me recordo e sempre recomendarei, pelo quanto me marcaram e deles gostei ao tempo da sua leitura.
Narciso e Goldmundo, de Herman Hesse, prodigioso relato da relação entre dois jovens rumo à descoberta das emoções e da vida. Podem cruzar-se, numa aliança de amizade profunda, dois seres diametralmente opostos, pele e razão, sentimento e intelecto, impulso e reflexão, arte e espiritualidade? Naturalmente que sim.
A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck, retrato da árdua conquista do oeste americano numa altura em que o sonho naqueles territórios (hoje mais conhecidos por USA) era ainda uma hipótese ou projecto de vida. Entre o paganismo e a fábula, entre Deus e a morte, o melhor do que a América como a conhecíamos nos deu durante o século passado. Aguardam-se dias melhores de um território onde conflui o melhor e o pior do ser humano. Salva-nos a arte, e a literatura de Steinbeck é a prova disso.
Auto de Fé, único romance de Elias Canetti. Um colosso narrativo sobre o amor aos livros, expresso na vida e história matrimonial do muito particular professor Peter Kien, bem como da sua relação problemática com a sua governanta e futura mulher.
No mais, em português de Portugal, não há como não voltar aos grandes entre os grandes: Nuno Bragança, Maria Velho da Costa, Gabriela Llansol ou Cardoso Pires, isto para não recuar muito.
A terminar, um livro divertidíssimo e muito curioso que estou a ler, porque as minhas estantes estão cheias de livros por ler que se vão acumulando sem que disso me aperceba… O Mundo Alucinante, do escritor cubano Reinaldo Arenas. Nele se conta a história (verídica e de muito espantar) do frei Servando Teresa de Mier, célebre personagem da história mexicana. Servando viveu entre os séculos XVIII e XIX e, qual um Cândido de Voltaire, devido às suas ideias pouco ortodoxas sobre as origens da Virgem de Guadalupe (também relacionada com a nossa Virgem Guadalupe alentejana, na Raposeira ou em Évora), vem a sofrer perseguições, prisões, desterros, ameaças de morte, fugas, etc., que o levam a percorrer a Espanha de Carlos IV e Godoy, Portugal, França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos e Cuba! Em suma, um brilhante romance de aventuras alicerçado numa imaginação febril.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Fátima Brito de Sousa.