
Que livros pretende ler este verão?
Costumo reservar as férias de Verão para ler biografias, porque, como são livros tipicamente volumosos, precisamos de mais tempo livre se não quisermos prolongar a leitura ao longo de vários meses. Este ano, levarei a de Roland Barthes, da autoria de Tiphaine Samoyault (Éditions du Seuil). Interessam-me muito não só pensamento de Barthes sobre a linguagem, mas também o seu estilo literário, o modo como escreve. Será o estilo literário de alguém um reflexo da maneira como vive? Vamos ver.
Ultimamente, dou por mim a ler mais ensaios do que ficção, mas não quero desinteressar-me da ficção. Por isso, vou levar um volume de contos de Joseph Roth, traduzidos pelo grande Michael Hofmann (W. W. Norton & Company). Nas férias do ano passado, acompanhei um ciclo de cinema italiano em que passaram um filme de Ermanno Olmi muito bonito, baseado na novela A Lenda do Santo Bebedor. Foi o que decidiu esta escolha. Costumo prestar atenção a estes sinais do universo. E note-se que o próprio Joseph Roth, aliás, gosta de explorar acontecimentos que não parecem puramente aleatórios, mas sim formados por aquilo que ele descreve como a “força inequivocamente literária que às vezes organiza o mundo”. Portanto, acho que vou gostar.
Vou levar também 50 Sounds, de Polly Barton (Fitzcarraldo), um livro de ensaios em que a autora, tradutora de japonês, explica como aprendeu esta língua. Espero que este livro me ajude a pensar sobre a minha própria relação com as línguas com que trabalho.
Geralmente, um dia antes de partir para férias, entro em pânico e acrescento mais livros: talvez Um Cão que Sonha, de Agustina (Relógio D’Água), a antologia de ensaios Like Love, de Maggie Nelson (Fern Press), ou Empúsio, de Olga Tocarczuk (Cavalo de Ferro, trad. de Teresa Swiatkiewicz)? Sem esquecer que tenciono também visitar a Feira do Livro do Porto, porque encontro lá sempre pavilhões de excelentes livrarias independentes, com olho para livros mais invulgares, que facilmente passam despercebidos no turbilhão editorial, mas podem ser mais cativantes e inesperados do que aqueles de que mais se fala.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
A Torre da Barbela, de Ruben A. (Livros do Brasil)
Ruben A. é um dos maiores escritores portugueses, e devia ser mais lido e conhecido. O romance A Torre da Barbela é um óptimo ponto de partida para quem procura um primeiro contacto com a sua obra. A acção desenrola-se no Alto Minho, acompanhando as interacções dos defuntos da família dos Barbelas. Deste modo, graças a estas personagens de oito séculos diferentes, mas que convivem como se estivessem vivas e não mortas, revisitamos Portugal e a língua portuguesa ao longo da História, mesmo nas suas dimensões mais fantasistas.
Sala de Sujos, de João Miguel Fernandes Jorge (Bestiário)
De João Miguel Fernandes Jorge, um grande escritor, com uma obra ampla e diversa (poesia, conto, ensaio, diário, crítica), recomendo esta antologia maravilhosa de contos e outros textos mais difíceis de classificar, em que, narrando visitas a museus, a monumentos ou a cidades com interesse histórico ou cultural, o autor desenvolve personagens que saem dos quadros, das esculturas e das ruas mais nebulosas destes lugares. Para quem quiser ler também a poesia deste autor, sugiro a Antologia dos Poemas de João Miguel Fernandes Jorge, organizada por Joaquim Manuel Magalhães para a Relógio D´Água.
A Ladra de Fruta, Peter Handke (Relógio D’Água, trad. de Helena Topa)
Na primeira frase deste livro, lemos: “Esta história começou numa daquelas tardes do meio do Verão, quando, ao andarmos descalços na erva pela primeira vez no ano, somos picados por uma abelha.” A seguir, acompanhamos as deambulações do narrador e da protagonista pelos campos da região francesa da Picardia em Agosto. Presta-se atenção não só ao espaço concreto, mas também aos devaneios, às associações mentais e aos sentimentos. Handke é um escritor tão evocativo, que nos faz imediatamente sentir mais vivos e inspirados. Este romance de 2017 do Prémio Nobel da Literatura de 2019 será um excelente companheiro para as outras aventuras e imagens que os leitores possam guardar do seu próprio Verão.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: João Costa.