
Que livros pretende ler este verão?
Não sei que livros irei ler no verão. Assumindo que serão alguns dos muitos que esperam assisadamente a sua vez na estante, escolhi três que têm em comum serem escritos por autores com os quais já contactei e que me deixaram vontade de os revisitar, mas também o facto de representarem literaturas (polaca, russa e japonesa) que não são propriamente exóticas, mas cuja visibilidade no mercado português não pode ser dada como adquirida para sempre e depende das apostas e da ousadia de algumas editoras.
- Histórias Bizarras, Olga Tokarczuk, Cavalo de Ferro, Trad. de Teresa Fernandes Swiatkiewicz.
- Sonechka, Ludmila Ulitskaya, Cavalo de Ferro, Trad. de Larissa Shotropa.
- Tóquio Express, Seicho Matsumoto, Presença, Trad. de André Pinto Teixeira.
Esta escolha é também um tributo às editoras que insistem em publicar obras de línguas menos divulgadas e, naturalmente, aos tradutores que tornam isso possível. A propósito disso, é vergonhoso que nenhuma das editoras cujos livros mencionei, com a excepção da Cavalo de Ferro, indique sequer o nome do tradutor nos respectivos sites. Dir-se-ia que, para quem decide estas coisas, essa informação é menos importante do que a dimensão das páginas ou o ISBN.
Recomende três livros a outros leitores (e diga-nos porquê).
Os critérios para recomendar este livro em vez daquele são tão numerosos e multiformes que mais vale não pensar demasiado no assunto e mergulhar de cabeça. Assim, e reagindo à lista dos 100 maiores romances de sempre compilada recentemente pelo jornal The Guardian, decidi recomendar três romances que eu considero que deveriam constar da lista e cujos autores não estão nela representados. Mais do que uma recomendação, é uma homenagem pessoal a uma forma literária cuja morte ou insignificância foi decretada vezes sem conta e que permanece pujante e ágil, conservando intacta a capacidade de se reinventar. O romance continua, a meu ver, a ser a forma mais interessante, eficaz e incisiva de interrogar e tentar compreender o mundo através da literatura.
- A Saga/Fuga de J.B., Gonzalo Torrente Ballester, Quetzal, Trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra.
- Os Moedeiros Falsos, André Gide, Bertrand, Trad. de Isabel St. Aubyn.
- A Obra ao Negro, Marguerite Yourcenar, Dom Quixote, Trad. de António Ramos Rosa, Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes.
São três romances muito diferentes: pletórico, conceptual e supremamente divertido, o de Torrente Ballester; um exercício moral e intelectual com uma surpreendente componente metaliterária, o de Gide; iniciático, metafísico e profundamente humano, o de Yourcenar. O potencial para a diversidade é, talvez, a característica mais crucial para a longevidade do romance. Não concebo que alguma vez esta forma se venha a esgotar.
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Todos os inquéritos de verão estão disponíveis nesta página.
A seguir: Filipa Martins.