[Entrevistas RIL] José Paulo Santos: «Os autores continuam na base da pirâmide. E isso não é acidental — é estrutural.»

José Paulo Santos é professor, escritor e cronista. Publicou recentemente um livro de crónicas a que deu o título de Serendipidade – 50 Crónicas do Acaso e do Ocaso. A este propósito, a Revista de Imprensa Literária enviou-lhe algumas perguntas sobre a obra, mas aproveitou igualmente a oportunidade para questionar o autor sobre o seu mais recente texto para a revista VISÃO (O país que ama livros, mas despreza quem os escreve), em que critica duramente o sistema editorial, os autores consagrados e a comunicação social. Boas leituras.

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O que podemos encontrar neste Serendipidade – 50 Crónicas do Acaso e do Ocaso?

Encontramos algo que se tornou quase subversivo: tempo para pensar sem pressa e sem culpa. Serendipidade não é um livro de respostas — e isso devia vir como aviso na capa, para evitar desilusões nos leitores que procuram soluções rápidas para a vida enquanto esperam pelo autocarro. Aqui não há atalhos, há caminhos. E alguns deles são sinuosos, incómodos e, pior ainda, exigem reflexão.

Há uma afinidade profunda com Rilke, quando escreve: «Tenha paciência com tudo o que está por resolver no seu coração (…) viva as perguntas agora.». Ora, viver as perguntas hoje é mais difícil do que nunca. Porque a pergunta obriga a parar, e parar é quase um atentado à produtividade contemporânea. Este livro propõe exatamente isso: desacelerar o pensamento para o tornar mais profundo. É um gesto quase escandaloso, quando tudo à nossa volta nos empurra para consumir ideias em vez de as digerir.

Depois, há uma espécie de coerência ética nestas crónicas: não oferecem consolo fácil nem indignação barata — dois produtos muito bem cotados nos mercados atuais. Em vez disso, provocam um desconforto subtil, que é talvez a forma mais honesta de respeito pelo leitor.

E sim, há gatos. Porque um gato — como o Gli de Istambul que acariciei na Hagia Sophia — ensina-nos algo essencial: viver sem se justificar. E há uma liberdade radical nisso que incomoda mais do que muitos discursos políticos.

Por fim, é um livro que confia no leitor — o que hoje é quase um ato de fé. Não o trata como consumidor, mas como interlocutor. E isso, para além de tudo o resto, é profundamente raro (vamos lá pôr a modéstia à parte, pronto!).

No prefácio, Onésimo Teotónio Almeida fala em «receitas para salvar a humanidade». Os livros salvam?

Quando Onésimo escreve «receitas para salvar a humanidade», não está a ser ingénuo — está a ser subtilmente genial. Creio que o mais me emocionou foi o excerto do Prefácio que saltou para para a contracapa: «Foi refrescante mergulhar nestas crónicas de José Paulo Santos. Elas arribam de outro mundo, de um ângulo hoje contra a maré. Apontam para a vida, para o futuro, inspiram esperança, como se uma luz clara voltasse a surgir-nos ao fundo do túnel ou uma aurora dissolvesse a escuridão da noite.»

Estamos a falar de alguém com décadas de pensamento, escritor, filósofo, professor da Universidade Brown, habituado a analisar o humano sem ilusões excessivas. Um homem que já viu ideias nascer, prosperar, falhar e regressar com outro nome. E quando alguém assim escolhe essa expressão, está a fazer duas coisas ao mesmo tempo: ironizar… e afirmar algo profundo. Ironizar, porque sabe que a humanidade não segue receitas. Basta ver as tentativas sucessivas de organização do mundo que acabaram em desastre ou, no mínimo, em frustração coletiva.

Mas também afirmar: há gestos intelectuais, éticos e literários que ajudam a reorientar o ser humano. Pequenos, discretos, mas fundamentais.

Onésimo terá reconhecido em Serendipidade uma coisa cada vez mais rara: um pensamento que não cede ao espetáculo, nem ao ressentimento, nem ao cinismo fácil. Porque hoje — diga-se — ser inteligente é relativamente comum; ser lúcido sem ser arrogante é que é raro.

Os livros não salvam. Mas podem impedir que alguém se torne completamente indiferente ao sofrimento, à injustiça, ao ódio ou à complexidade. E num mundo onde a indiferença cresce com a velocidade do Wi-Fi, isso é já um ato revolucionário. Diria mais: um livro não muda o mundo. Mas pode tornar uma pessoa incapaz de aceitar o mundo como está. E isso… é profundamente perigoso. Felizmente.

Viveu em vários países. Que papel teve o acaso nessas andanças?

O acaso teve um papel fundamental — sobretudo porque eu nunca tive o controlo suficiente para o impedir.

Em La Marsa (Tunísia), na livraria Al Kitab, perdia-me deliciado entre livros e depois encontrava-me à mesa, a continuar a leitura nos sabores. Porque há pensamentos que só fazem sentido quando acompanhados por harissa, um couscous ou um peixe grelhado e uma conversa sem agenda.

E depois vem La Goulette. Claudia Cardinale. Um encontro inesperado, absolutamente improvável — e, como todos os bons momentos, impossível de repetir. A vida tem esse humor: oferece-nos episódios que nem a ficção ousaria escrever.

Em Istambul, acaricio o gato Gli na Hagia Sophia. Um gato que a cidade respeitava como parte do seu património vivo. E percebi ali uma coisa essencial: uma civilização que cuida dos seus gatos tem mais hipóteses de sobreviver à estupidez humana.

E depois África. Guiné Equatorial. Moçambique. Meninos descalços, a correr na lama, protegendo-se da chuva com um livro aberto. Esse momento deveria ser obrigatório nos manuais escolares portugueses. Talvez nos ajudasse a relativizar o conceito de “não tenho tempo para ler”.

Ali, o livro não é um luxo, nem um objeto cultural. É proteção. É abrigo. É símbolo de algo que, mesmo na pobreza extrema, se quer preservar.

E a partir daí, torna-se complicado discutir literatura sem discutir justiça. O acaso não é acaso. É um método pedagógico brutal.

No dia 14 deste mês publicou um texto na VISÃO em que aponta o dedo ao «sistema editorial», aos autores consagrados, à comunicação social. Quem ler o texto perceberá o que quer dizer, mas gostaria que desenvolvesse um pouco mais, nomeadamente tendo por base esta frase: «O livro deixa de ser pergunta e passa a ser decoração.». Porquê?

Porque, hoje, ler dá mais trabalho do que parecer que se lê. Entrámos numa fase curiosa da civilização: a leitura tornou-se esteticamente valorizada, mas intelectualmente dispensável.

O livro serve para compor a mesa da sala, uma estante de um restaurante, enriquecer o enquadramento de uma fotografia, transmitir uma aura de profundidade… sem nunca perturbar. Há bibliotecas extraordinárias em casas onde ninguém abre um livro há meses. São como ginásios decorativos: existem, impressionam… mas não são utilizados.

E depois há o fenómeno performativo: ler para publicar que se está a ler. Um exercício curioso, onde a leitura deixa de ser íntima para se tornar social — mas sem profundidade.

O problema é grave: quando o livro deixa de questionar, o leitor deixa de evoluir. E quando o leitor não evolui, o espaço público enche-se de certezas superficiais… o que explica muita coisa. Trocar o livro pela sua imagem é como trocar o amor pela fotografia do amor: parece igual, mas falta tudo o que interessa.

Devem os autores consagrados desafiar o status quo?

Devem. Mas sejamos honestos: dá muito mais trabalho do que participar em festivais literários.

Desafiar o status quo implica perder conforto, sair da repetição, dizer aquilo que não é consensual. E isso, num mercado que privilegia previsibilidade, não é particularmente conveniente. Mas há uma questão ética que não pode ser ignorada: quem tem visibilidade tem responsabilidade. Caso contrário, transforma-se num autor decorativo — e já temos decoração suficiente nas livrarias.

Há autores que continuam a pensar. E outros que passam a gerir a sua própria imagem de pensadores. A diferença nota-se — embora nem sempre nas vendas. E, curiosamente, os leitores mais atentos percebem isso… mesmo quando fingem não perceber.

Os novos autores são vistos com desconfiança?

São vistos como todos os recém-chegados: com curiosidade… e alguma vigilância. Como se fossem imigrantes.

O campo literário não é uma terra neutra. É um território com códigos, hierarquias, redes. O novo autor não entra num espaço vazio — entra num espaço onde já há narrativas estabelecidas.

E há um fenómeno fascinante: muitos consagrados falam da importância de dar oportunidades… mas não largam o lugar. É profundamente humano. E profundamente previsível.

Ao mesmo tempo, há um lado positivo: quem entra hoje na literatura tem de ter mais consistência. Não basta publicar — é preciso sustentar-se.

Mas há também um risco: o sistema pode filtrar não apenas o mau… mas também o bom que ainda não foi reconhecido. E isso, historicamente, tem acontecido com frequência embaraçosa. O sistema matou muitos autores, poetas escritores. E o sistema reconheceu-os quando eram já nuvem, talvez, como no maravilhoso poema de José Gomes Ferreira: “devia morrer-se de outra maneira”.

O crescimento do mercado não beneficia os autores. Porquê?

Porque o sistema foi desenhado com uma lógica clara: o livro é um produto… o autor é um fornecedor. Os números são bons. Há crescimento. Há dinamismo. Há entusiasmo institucional. Mas esse crescimento não se distribui de forma equitativa.

Os autores continuam na base da pirâmide. E isso não é acidental — é estrutural. Os grandes grupos controlam a distribuição e a visibilidade. As livrarias privilegiam nomes seguros. O marketing substitui a crítica literária. E o risco é minimizado.

E depois há a distorção mais desconcertante: editoras que publicam mediante pagamento, independentemente da qualidade do texto.

Temos, assim, um mercado que cresce… mas não necessariamente em densidade cultural.

Mais livros, menos leitura crítica. Mais autores publicados, menos exigência literária.

É um sistema que responde ao consumo — não ao valor. E o consumo, como sabemos, raramente é um critério rigoroso.

Está convencido de que Portugal «ama livros»?

Portugal ama a ideia de amar livros. Portugal tem uma relação bonita com os livros… mas algo distante. Amamos o símbolo. Amamos o evento. Amamos a ideia de cultura. Mas amar livros implica uma coisa incómoda: lê-los com atenção.

E ler com atenção implica outra coisa ainda mais incómoda: pensar. Temos um país com tradição literária extraordinária… e uma prática de leitura que nem sempre acompanha essa tradição.

Temos feiras, eventos, discursos, fotografias bonitas… mas amar livros implica lê-los. E, pior ainda, pensar com eles. Somos um país que descobriu o mundo… mas que, hoje, revela algum receio em descobrir um pensamento novo. Talvez por isso eu tenha tido de sair: Tunísia, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Istambul, África…

E depois lembro-me das crianças em Moçambique. É recorrente. Do livro sobre a cabeça. Da proteção instintiva. E pergunto-me: quem ama mais o livro? Quem o vive… ou quem o exibe?

Portugal ama os livros, sim. Mas ainda está a aprender — lentamente — a suportar aquilo que eles fazem: questionar, desinstalar, incomodar.

E isso, convenhamos, não é tarefa leve. Sobretudo num país que gosta tanto de estar confortável. Que se acomodou. Que não lê e que, por isso, já não grita. E vai deixando de ser livre, silenciosamente.

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