Isabel Rio Novo em entrevista à RIL: “Há um conselho que dou aos meus alunos: nunca se contentarem com a primeira versão e descobrirem o verbo de edição que existe para cada um: pode ser cortar, desenvolver, clarificar, limpar…”

Revista de Imprensa Literária publica hoje as respostas de Isabel Rio Novo à entrevista-inquérito que temos vindo a promover nas últimas semanas.

Amanhã: Ricardo Figueira.

Terça-feira: Rosa Alice Branco.

Todas as entrevistas anteriores estão acessíveis a partir daqui.

Boas leituras.

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Se pudesse escolher uma ou duas pessoas para lerem o seu livro mais recente, quem seriam?

O meu leitor ideal mora comigo. É com ele que começo a discutir a ideia de um livro, é ele quem lê e edita a primeira versão do manuscrito, é ele quem fica com o primeiro exemplar chegado da gráfica. À parte esse meu privilégio, penso que publicar um livro é sempre a manifestação do desejo, tão tocante quanto pueril, de sermos lidos e entendidos pelo maior número possível de pessoas, até então desconhecidas, mas que de certa forma deixam de o ser.

Como lida com o bloqueio criativo?

Tenho muitas interrupções criativas, mas bloqueios criativos, sinceramente, não. Será a vantagem do meu estranho método de escrita, que consiste em trabalhar em mais do que um livro ao mesmo tempo. Acontece-me estar a escrever e perceber de repente: «Esta ideia não é daqui, é do outro livro». Depois, há dias em que a escrita propriamente dita não avança, mas o trabalho de construir um livro é muito mais do que isso, e aí podemos dedicar-nos a reler o que já escrevemos, começar a corrigir, prosseguir a pesquisa…

Qual foi o melhor ou o pior conselho de escrita que já recebeu?

Recebi vários bons conselhos, mas o principal, que já não sei bem onde li, terá sido o de escrever o que me apetecesse e como me apetecesse. Há um que dou aos meus alunos: nunca se contentarem com a primeira versão do que escrevem e descobrirem o verbo de edição que existe para cada um: pode ser cortar, desenvolver, clarificar, limpar… O meu verbo, por exemplo, é sempre cortar. Quanto aos maus conselhos, tenho tendência a esquecê-los. Mas recordo um. Na altura, achei que era tonto; agora, percebo que era mal-intencionado. Disseram-me que, se quisesse ser boa escritora, nunca poderia ser feliz na minha vida pessoal.

Quem é a pessoa, ou qual é o lugar ou prática que teve o maior impacto na sua formação como escritora?

Todos os livros que li, todos os filmes a que assisti, todos os lugares que visitei, todas as pessoas com quem me relacionei tiveram algum impacto na minha escrita. Mas quem mais teve foi, sem sombra de dúvida, quem na infância me mostrou o mundo fascinante dos livros: a minha tia bisavó, que me ensinou a escrever antes da escola; o meu avô, o homem mais erudito que já conheci; o meu pai, leitor compulsivo.

Há alguma parte da sua rotina de escrita que poderia surpreender os seus leitores?

Mesmo quando tenho uma manhã ou uma tarde só para a escrita e estou absorvida nesse trabalho, de vez em quando sinto uma necessidade quase física de me interromper. Vou ligar a máquina da roupa, vou tratar da horta… Durante esse interregno, o livro fica, mesmo que eu não pense no assunto, «a marinar». Muitas vezes, quando me sento de novo ao computador, a coisa flui ainda melhor.

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Isabel Rio Novo nasceu no Porto, onde se doutorou em Literatura Comparada. Leciona Escrita Criativa e outras disciplinas no âmbito da literatura, cinema e outras artes, sendo autora de diversas publicações académicas nessas áreas. Enquanto ficcionista, é autora da narrativa fantástica O Diabo Tranquilo (2004), a partir de poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, da novela A Caridade (2005, Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes), do livro de contos Histórias com Santos (2014) e dos romances Rio do Esquecimento (2016, finalista do Prémio LeYa e semifinalista do Prémio Oceanos), A Febre das Almas Sensíveis (2018, finalista do Prémio LeYa) e Rua de Paris em Dia de Chuva (2020, finalista do Prémio Europeu de Literatura e do Prémio de Narrativa do PEN Clube). Em 2019, publicou O Poço e a Estrada, uma biografia de Agustina Bessa-Luís. A Matéria das Estrelas é o seu mais recente romance. (via Wook)

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