Margarida Rebelo Pinto em entrevista à RIL: “Não sou capaz de me sentar à secretária se tiver a casa desarrumada, a máquina de loiça por despejar, ou máquinas de roupa por fazer. Preciso de ter a casa totalmente em ordem para escrever”

Margarida Rebelo Pinto aceitou responder às perguntas da REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA e são essas respostas que o/a convidamos a ler hoje.

As entrevistas da série dedicada a autores portugueses estão disponíveis aqui.

Amanhã: Rui Couceiro.

Quinta-feira: Julieta Monginho.

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Se pudesse escolher uma ou duas pessoas para lerem o seu livro mais recente, quem seriam?

Gostaria que o meu pai pudesse ler os meus dois últimos livros se ainda fosse vivo, morreu em 2020 por isso não leu A Lenda do Belo Soldado, que recria uma lenda sobre o guerreiro Viriato e o seu amor secreto, nem A Grande Ilusão, que é o retrato da Geração X.

Como lida com o bloqueio criativo?

Se começar a escrever muito cedo, é raro ter bloqueio criativo. O bloqueio aparece quando começo a ser interrompida com telefonemas e e-mails, mensagens, etc. De qualquer maneira, quando tenho algum bloqueio, vou fazer uma caminhada ou vou ao ginásio fazer uma aula de pilates ou de alongamentos para me abstrair do trabalho.

Qual foi o melhor ou o pior conselho de escrita que já recebeu?

O melhor conselho que recebi foi do meu editor durante 25 anos, António Lobato Faria, que sempre me dizia “Não penses demais, senta-te escreve”. A opinião de uma crítica literária no início da minha carreira, a Luisa Mellid Franco, também me influenciou (disse que eu estruturava as histórias no jogo de espelhos e isso foi muito importante para vários romances). Não me lembro de ter recebido nenhum mau conselho – pode ter acontecido mas devo ter apagado imediatamente da minha cabeça.

Quem é a pessoa, ou qual é o lugar ou prática que teve o maior impacto na sua formação como escritor?

Vários escritores da minha adolescência como John Steinbeck, Raymond Carver, Bukowski, Yourcenar, Camilo Castelo Branco, Agustina Bessa Luís, António Alçada Baptista. E também o trabalho, durante muitos anos, com António Lobato Faria na escolha dos temas, no desenvolvimento das histórias e na estrutura dos 20 romances que já escrevi.

Há alguma parte da sua rotina de escrita que poderia surpreender os seus leitores?

Começo a escrever sempre muito cedo, de preferência quando o sol nasce e não sou capaz de me sentar à secretária se tiver a casa desarrumada, a máquina de loiça por despejar, ou máquinas de roupa por fazer. Preciso de ter a casa totalmente em ordem para escrever. Também não consigo escrever quando estão outras pessoas na mesma sala. Nunca escrevo depois do sol se pôr e nunca escrevo ao fim-de-semana. Gosto de escrever durante as férias em cadernos, em hotéis, na praia, ou nos aviões e comboios.

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Margarida Rebelo Pinto sempre quis ser escritora. Aos oito anos, uma febre reumática obrigou-a a algum isolamento, o que acentuou o seu lado sonhador e romântico, ajudando-a a desenvolver a resiliência necessária para abraçar o caminho solitário da escrita.
Estreou-se na imprensa aos 22 anos, no lendário Independente, como cronista, um dos seus géneros de eleição. Ao longo das últimas três décadas, tem mantido uma presença regular na imprensa escrita e na televisão, enquanto cronista, ficcionista e comentadora. Nunca se cansa de escrever e de falar sobre relações, amor e sexo.
Tinha 33 anos quando lançou Sei Lá, um enorme sucesso que deu origem a um filme com o mesmo nome. A sua obra literária inclui trinta livros publicados, nos quais explora o género epistolar, a literatura infantil, o romance histórico e o romance urbano contemporâneo. Vários dos seus livros foram traduzidos, conquistando leitores na Europa, no Brasil e restante América Latina. Escreve todas as manhãs, exceto aos fins-de-semana. Nos intervalos da vida, dedica-se à poesia, que partilha nas redes sociais. (via Wook).

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