Cristina Carvalho em entrevista à RIL: “Escrevo sempre a ouvir música. Sempre. Ponho uns auscultadores e ligo a música em altíssimo som. Não, não é música clássica. Mas só com um som altíssimo, mesmo, consigo a abstracção total que preciso para me concentrar”

Depois de ontem termos dado um salto aos Açores, regressamos hoje ao continente para dar voz a Cristina Carvalho, a convidada 32 da Revista de Imprensa Literária.

Amanhã: Nuno Costa Santos.

Sexta-feira: Sara Rodi.

Todas as entrevistas anteriores estão acessíveis a partir daqui.

Boas leituras.

***

Se pudesse escolher uma ou duas pessoas para lerem o seu livro mais recente, quem seriam?

Ainda bem que não posso escolher ninguém para ler seja o que for, nem escrito por mim, nem escrito por outro alguém. Como podia eu escolher duas pessoas? Duas? Duzentas? Duas mil? A dificuldade é sempre a mesma, talvez a interrogação – duas pessoas? – seja ainda de mais difícil resposta. O meu livro mais recente é fruto de uma enorme amizade e compreensão mútua ainda que as nossas artes sejam muito distintas. O desafio foi-me feito pelo meu amigo, o artista pintor, cenógrafo, arquitecto José Manuel Castanheira. As aguarelas que pintou são surrealistas e sobre cada uma delas – são 21 – escrevi textos também surrealistas. Gostava, pois, que não duas, mas muitas pessoas lessem este livro. Quem, não sei.

Como lida com o bloqueio criativo?

Eu só escrevo quando quero, quando me está a apetecer muito – é como almoçar ou jantar ou beber um café… Se sinto que me está a apetecer muito, aproveito logo esse momento e esse é um momento especial que pode demorar cinco minutos, uma hora, um dia, muitos meses ou mais de um ano. Ainda que não pareça, são átomos do tempo que me foi oferecido à nascença e quero aproveitar; são impulsos que tenho desde que me conheço os quais não posso nem quero desperdiçar. Bloqueio criativo? Se aproveito um impulso, o bloqueio não existe. Não consigo explicar melhor. Mas acredito que quem se senta a uma secretária, ou seja onde seja e pensa: agora vou escrever um livro…bem, assim, claro que deve haver horríveis momentos de bloqueio. Nunca me aconteceu.

Qual foi o melhor ou o pior conselho de escrita que já recebeu?

Fecho, imediatamente, o livro quando não gosto. É que, nunca recebi conselhos, só opiniões e as opiniões de escrita obtenho-as nos livros que já li e vou lendo ao longo da minha vida. O conselho é algo, altamente, irritante

Quem é a pessoa, ou qual é o lugar ou prática que teve o maior impacto na sua formação como escritora?

Na verdade, adoro alguns escritores e com eles tenho aprendido – inconscientemente – tudo o que sei sobre literatura, neste meu caso, ficção. Também já escrevi centenas? milhares? de poemas, mas não mostro. Nasci mergulhada na literatura, se assim se pode dizer – ficção e poesia – Nasci de dois escritores, António Gedeão (1906-1997) (pseudónimo de Rómulo de Carvalho) e de Natália Nunes (1921-2018), vivi em Coimbra logo após o meu nascimento e até aos sete anos e nunca fui à escola, só quando viemos viver para Lisboa em 1957, mas quando entrei na escola já sabia ler e escrever há muito; nunca convivi com crianças no tempo que estive em Coimbra. Brincava na terra, lia e escrevia. Fui muito feliz. Portanto, pessoas e lugares que me tenham ajudado na minha formação como escritora? As primeiras pessoas, os meus pais e depois alguns escritores portugueses e estrangeiros que venero. Quanto a lugares, são tantos, tantos…

Há alguma parte da sua rotina de escrita que poderia surpreender os seus leitores?

Escrevo sempre a ouvir música. Sempre. Ponho uns auscultadores e ligo a música em altíssimo som. Não, não é música clássica. Mas só com um som altíssimo, mesmo, consigo a abstracção total que preciso para me concentrar. E cada livro com sua música que será sempre a mesma ou mesmas até ao final da escrita.

***

Cristina Carvalho nasceu em Lisboa, em 10 de novembro de 1949. É autora de diversos livros, muitos dos quais fazem parte do Plano Nacional de Leitura (PNL) para diferentes graus de ensino. Filha da escritora e tradutora Natália Nunes e do professor e poeta Rómulo de Carvalho/António Gedeão, o seu primeiro livro, Até Já Não é Adeus: (histórias perversas), foi publicado em 1989.
A sua obra abrange vários géneros literários, incluindo romance, romance biográfico, conto e literatura juvenil. Alguns dos seus livros foram traduzidos para várias línguas, como inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e, em breve, sueco.
Em 2016, foi galardoada com o Prémio SPA/RTP, na categoria de Literatura para a «melhor ficção narrativa», pelo livro O Olhar e a Alma – Romance de Modigliani. Em 2021, recebeu o Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga APE | CM Coimbra, pelo livro Ingmar Bergman, O Caminho Contra o Vento.

Para mais informações, queira consultar o sítio web da escritora: www.cristinacarvalho.org.

*

Deixe um comentário