A REVISTA DE IMPRENSA LITERÁRIA publica mais uma entrevista – a número 28. Hoje é a vez de Ana Margarida de Carvalho.
Amanhã: José Riço Direitinho.
Segunda-feira: Cláudia Lucas Chéu.
Todas as entrevistas anteriores estão acessíveis a partir daqui.
Boas leituras.
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Se pudesse escolher uma ou duas pessoas para lerem o seu livro mais recente, quem seriam?
Não escolhia ninguém, na verdade. Salvo uma única excepção, nunca fiz esse pedido. As primeiras pessoas a lerem os meus livros são sempre os meus editores e revisores, porque é suposto os inéditos seguirem esse curso, claro. Mas, muito sinceramente e por mais paradoxal que pareça, nisto de escrever literatura, a coisa que mais me custa é mostrar, dar a ler, a pessoas conhecidas ou a leitores anónimos. Nunca escrevo sobre mim, mas há sempre pedaços de mim que estão entre as linhas, por isso sinto essa leitura como uma espécie de devassa. Até a mim própria me custa ler o que escrevi, nunca o faço. Claro que, além dos olhos profissionais que me dão uma perspectiva distanciada e me indicam gralhas, erros, incongruências, tenho tido muita sorte com os leitores que me calharam, que me devolvem interpretações muito interessantes, até bem melhores do que as minhas.

Como lida com o bloqueio criativo?
Lido muito mal. Sou contra. Não devia existir.
Qual foi o melhor ou o pior conselho de escrita que já recebeu?
O melhor: Write drunk, edit sober (Ernest Hemingway, parece, pelo menos a frase é-lhe frequentemente atribuída). Tenho alguma dificuldade em seguir o primeiro postulado, uma vez que não bebo, nada de nada alcoólico, mas percebo o que ele, ou a pessoa que inventou a frase, quer dizer. Uso muito recursos como associação de ideias, fluxo de consciência, divagações, incluo citações, pedaços de coisas de que gosto e que me ocorrem. Por vezes, depois, ao reler no dia seguinte, nem percebo bem o sentido daquilo que lá está, mas acredito que a ausência de um sentido óbvio ou mesmo o erro podem ter o seu encanto. E acolho com muito apreço conceitos como a desorientação ou a divagação, a repetição ou o caos, que como diz Saramago, é uma ordem por decifrar.
Quem é a pessoa, ou qual é o lugar ou prática que teve o maior impacto na sua formação como escritora?
Os meus professores de português que tentaram formatar a minha maneira de escrever. Teve muito impacto. Ensinaram-me a fazer exactamente o oposto do que eles indicavam.
Há alguma parte da sua rotina de escrita que poderia surpreender os seus leitores?
Não sei se é surpreendente, mas pode parecer extravagante. O facto de eu escrever no chão, sendo que as peças de mobiliário de que mais gosto (e colecionaria se tivesse dinheiro) são cadeiras e secretárias. Mas se lhes desse uso perdiam o fascínio da inutilidade, que é um conceito que também me seduz muito.
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Jornalista e escritora, licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, onde nasceu. Assinou várias reportagens premiadas, crónicas, ensaios e crítica cinematográfica e literária. É autora de guiões de cinema e de uma peça de teatro. O seu romance de estreia, Que Importa a Fúria do Mar, venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) referente a 2013. Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato recebeu igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela da APE (2016). Foi nomeado livro do ano pela SPA e venceu o Prémio Literário Manuel de Boaventura (2017). Pequenos Delírios Domésticos, o seu primeiro livro de contos, venceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2017. O romance O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça, publicado pela Relógio D’Água em 2019, foi finalista do Prémio Oceanos 2020 e do Prémio de Literatura da União Europeia 2021. Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos da Guerra), editado pela Relógio D’Água em 2021, foi finalista do Prémio PEN Clube Português na categoria de Narrativa. Tem dois livros infantis: A Arca do É, com Sérgio Marques, e A Barata Que Acordou Transformada numa Gigantesca Menina, com Anna Bouza da Costa. (via Wook)
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